DESAFIOS DO CASAMENTO COM UMA PESSOA AUTISTA SEM DIAGNÓSTICO

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É um desafio para a maioria dos casais encontrar um equilíbrio entre suas necessidades e expectativas de seu parceiro. Em um relacionamento em que uma pessoa é autista, provavelmente há muito mais chances de acontecerem frustrações, mal-entendidos, isolamento social e afastamento do contato erótico-afetivo. Encontrar um caminho para um relacionamento duradouro respeitoso, amoroso e gratificante é o desejo de todo casal comprometido.

Existe agora uma variedade de livros, escritos sobre relacionamentos quando um parceiro está no espectro do autismo, livros escritos por profissionais, bem como aqueles escritos por mulheres casadas com homens no espectro do autismo. Há também alguns escritos por casais juntos. Ler histórias de outras pessoas pode validar muito seus sentimentos e experiências. Tenha em mente que cada relacionamento é único. A melhor saída é procurar ajuda de um psicólogo especialista em autismo, para ajudar você neurotípica (o) que está em sofrimento e seu parceiro que possa estar no Transtorno do Espectro Autista.

Caso seu conjugue concorde, será importante ele obter o diagnóstico oficial de autismo, caso não o tenha. Se ele(a) se negar a procurar ajuda psicológica ou ir a um profissional psiquiatra, neurologista, neuropsicólogo, de fato é aconselhável que você cuide de sua saúde emocional o quanto antes, do que apenas ficar apenas lendo livros e artigos, mesmo porque você não irá conseguir lidar com a situação sozinha(o).

Sabemos atualmente que os conjugues casados com pessoas autistas podem ficar muito ansiosos, frustrados, solitários na relação conjugal, levando consequentemente a um quadro de Depressão.

É um complicador quando o conjugue se nega a buscar tratamento ou buscar o diagnóstico oficial do autismo. Mesmo porque o Transtorno do Espectro Autista, geralmente vem acompanhado de quadros psiquiátricos e neurológicos, como Transtorno de Ansiedade, Depressão, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno Afetivo Bipolar, TDAH, Epilepsia, Transtorno da Integração Sensorial, dentre outros. Estes quadros quando não tratados com Psiquiatra, Neurologista, Terapia Ocupacional e com Psicólogos especialistas em autismo, tendem a se agravar, comprometendo a qualidade de vida, saúde emocional da pessoa autista e da relação conjugal com a (o) parceira (o).

Uma pesquisa realizada no Japão (2018), apontou que as esposas que se casaram com homens autistas, sentiram atração pelo marido antes do casamento por perceberem sua gentileza, sinceridade, serem engraçados pela forma direta, confiáveis, honestos, tinham hobbys em comum, admiravam sua inteligência, atributos de um bom homem e sentiram-se validadas como mulheres. Porém, todas se casaram sem saber que o marido pudesse estar no espectro autista.

Na pesquisa, nenhum dos maridos aceitaram realizar diagnóstico oficial com psiquiatra ou neurologista ou procurarem ajuda psicológica com especialistas em autismo, apesar do casamento estar em crise.

Ao longo dos anos, as esposas começaram a sentir desconforto em relação ao marido autista em sua vida de casada, por não serem correspondidas afetivamente, sexualmente e não percebiam empatia em momentos quando sentiam dor, tristeza, alegria, luto e ou preocupação com sua vida em casa ou profissional. As esposas começaram a lutar contra a solidão por meio de comportamentos de resignação e sentimento de culpa, pelo casamento estar sempre em crise e o marido ser um bom homem. Nesse processo, as esposas foram afetadas pela exclusão social, porque apoiaram o marido autista em seu isolamento social, elas também se afastaram dos amigos, parentes, familiares, não viajavam ou realizavam algum tipo de lazer e ou diversão. O aumento do estresse continuo durante anos por arcarem sozinhas as tarefas de casa, cuidados com os filhos, falta de comunicação afetiva/compreensiva, relações sexuais eventuais, foram levando a sinais de sofrimento mental nas esposas.

Algumas esposas, utilizaram de informações na internet, leituras em livros sobre suas suspeitas de autismo em seu marido. O objetivo destas esposas era ajudar o marido autista e melhorar a vida conjugal. As esposas fizeram listas, mandavam mensagens escritas, tiveram atitudes bem concretas na comunicação e acreditaram que estavam no controle, contudo tais medidas não foram suficientes para diminuírem os desafios conjugais. Obviamente, o Transtorno do Espectro Autista envolve várias comorbidades presentes, mesmo que as esposas tentassem manejos indicados para pessoas autistas, eram ineficazes, pois não contemplavam intervenções médicas e psicológicas necessárias. Outro ponto que as esposas fracassaram, foi a impossibilidade de resolverem o próprio sofrimento psíquico de anos, sem ajuda psicológica.

Finalmente, a luta prolongada das esposas com seu sentimento de solidão, falta de compreensão do que estava acontecendo, mesmo buscando apoio com amigos, familiares e conselheiros matrimoniais levou a sérios prejuízos a saúde mental e física. As esposas, informaram que a maioria das pessoas que procuraram não forma continentes a suas angustias, entendiam suas queixas como sem relevância, e que elas eram ingratas por tem um homem bom, outros diziam que em problemas de casais não se dá opinião, outros apenas faziam orientação religiosa e/ou aposta em pensamentos positivos, e a grande maioria reforçava que a culpa era dela por não saber conduzir o casamento. Nenhuma das pessoas e profissionais que as esposas procuraram levantaram a possibilidade do seu marido estar no espectro autista.

Algumas esposas relataram que o estresse conjugal, desemprego do conjugue, isolamento social, brigas constantes levou o marido autista a apresentar um comportamento verbal agressivo e ou violência doméstica.

As consequências a saúde emocional das esposas casadas com homens autistas (que não obtiveram diagnóstico ou se negaram a buscar tratamentos) apontaram para quadros de ansiedade, síndrome do pânico, fadiga crônica, hipertensão arterial e depressão. Algumas destas mulheres da pesquisa optaram pelo divórcio. Outras buscaram ajuda de psicoterapia individual e ou grupos de apoio especializados em autismo.

Os resultados deste estudo de 2018, indicaram que a compreensão e o apoio são substancialmente importantes não apenas para os maridos autistas, mas também para as esposas de maridos autistas. Ou seja, experiências de falta de acolhimento/incompreensão por parte de profissionais da saúde, conselheiros e de pessoas em geral, podem reforçar à exclusão social ou ao sentimento de solidão das esposas e seus maridos autistas. Por outro lado, a compreensão e a empatia de profissionais e outras pessoas próximas a essas esposas podem possibilitar a inclusão social ou a capacidade de manter o equilíbrio emocional em circunstâncias estressantes. Portanto, para amenizar qualquer crise conjugal entre maridos autistas e suas esposas, é importante buscar ajuda profissional especializada, promover a compreensão dos profissionais de saúde e do público sobre o Transtorno do Espectro Autista.

Se você deseja que seu parceiro com hipótese de ser autista, realize um diagnóstico oficial, precisa explicar objetivamente: quais as vantagens de se obter o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista e quais comorbidades estão presentes, as desvantagens de não realizar o diagnóstico ou as consequências de se negar a buscar tratamentos especializados em autismo, aonde conseguir o diagnóstico, o pós-diagnóstico de autismo e formas de tratamento do autismo em adultos. Aqui no blog do Instituto Inclusão Brasil, você poderá encontrar vários artigos com todas estas informações.

A indicação para procurar ajuda com psicólogo, depende de cada caso, o recomendável poderá ser psicoterapia com psicólogo especialista em autismo para cada um dos conjugues. Dependendo do caso, a opção de Terapia de Casal pode ser útil. Contudo, se a dupla estiver de acordo em reconhecer os problemas conjugais, então a Terapia de Casal é indicada, mas se apenas um conjugue percebe o sofrimento, os problemas e a crise no casamento, neste caso é mais indicado psicoterapia individual. A psicoterapia recomendada é Terapia Cognitiva Comportamental, Terapias Humanistas de Conversação, contudo é sempre recomendável realizar com psicólogo especialista em autismo.

1. Transtornos do Espectro do Autismo 

O autismo é um distúrbio neurobiológico que afeta a percepção, a comunicação, as habilidades sociais, o aprendizado e o comportamento. As informações processadas pelos sentidos podem facilmente superestimar um indivíduo no espectro do autismo. Por outro lado, uma pessoa autista também pode ter dificuldade em processar a entrada de seus sentidos (visão, audição, paladar, texturas, o toque, temperatura, etc) e ser pouco responsivo, não responsivo e/ou ter uma resposta única à entrada sensorial.

A comunicação verbal na pessoa autista é muitas vezes processada mais lentamente e as palavras interpretadas literalmente. As pessoas no espectro do autismo muitas vezes têm problemas para se manter no tópico e manter uma conversa. As habilidades sociais também são afetadas. O contato visual pode ser difícil e, às vezes, as expressões faciais podem não refletir os verdadeiros sentimentos da pessoa. As dicas sociais são muitas vezes perdidas ou mal interpretadas.

Pessoas autistas apresentam dificuldades em como se conectar com os outros socialmente e nas relações eróticas-afetivas. Cada pessoa autista se apresenta de forma diferente com seus desafios. Muitas pessoas no espectro do autismo também sofrem de ansiedade e outras comorbidades.

Seu parceiro autista poderá apresentar déficits nas funções executivas. As tarefas da função executiva incluem planejamento, organização, priorização, gerenciamento de tempo, regulação emocional e controle de impulsos. A inércia, tanto para iniciar quanto para interromper tarefas, pode ser um desafio para pessoas no espectro do autismo. Esses déficits nas funções executivas podem ser erroneamente atribuídos à falta de motivação e/ou problemas de comportamento ou personalidade. As esposas (os) neurotípicos acabam realizando muitas tarefas de função executiva dentro do relacionamento, sentindo-se sobrecarregadas (os).

Se este for o caso de um diagnóstico de autismo recente seu ou do seu esposo, você e/ou seu parceiro podem estar elaborando para aceitar o diagnóstico. Chegar à aceitação pode ser difícil para um ou ambos. À medida que você procura aprender mais sobre o TEA e como isso afeta seu parceiro, você, seus filhos e seu relacionamento, provavelmente aos poucos poderá chegar a aceitação, ir melhorando a relação conjugal e familiar.

À medida que você aprende mais e trabalha para reconhecer o papel que o Transtorno do Espectro do Autismo desempenha em seu relacionamento, será útil procurar profissionais experientes para fazer psicoterapia e/ou participar de um grupo de apoio para pessoas no espectro do autismo ou vice-versa. Tanto você neurotípica(o) como seu marido autista precisam de apoio profissional.

Também será útil manter uma lista de suas qualidades positivas e desejáveis, e o que a (o) atraiu você ao parceiro autista como um casal neurodiverso. Pode ser difícil lembrar desses traços positivos sobre si mesma(o) quando você está no meio de tempos muito difíceis e confusos. Lembrar-se das características positivas tanto de você quanto de seu parceiro aumentará sua autoestima e ajudará a motivá-lo à medida que você lida com seus desafios de relacionamento. Não tente resolver tudo sozinha(o) tanto o parceiro neurotípico ou conjugue autista, devem procurar ajuda de especialistas em autismo.

2. Reconhecer e abordar necessidades sensoriais

Problemas sensoriais muitas vezes afetam pessoas autistas. Como mencionado anteriormente, um ou mais dos sentidos podem ser afetados. Os sentidos podem ser excessivamente sensíveis (hipersensíveis) e/ou subsensíveis (hipossensíveis). Algumas pessoas com autismo são hipersensíveis a várias luzes. Por exemplo, eles veem o piscar e/ou ouvem o zumbido da iluminação fluorescente ou piscante. Para alguns, as dores de cabeça são desencadeadas. Uma pessoa no espectro do autismo pode ser excessivamente sensível a vários cheiros e/ou sons no ambiente. O toque leve pode parecer alfinetes, mas as alfinetadas reais podem não ser sentidas.

Em algumas situações, uma pessoa no espectro do autismo pode parecer não processar informações sensoriais de um ou mais dos cinco sentidos familiares de visão, olfato, audição, paladar e tato. Eles podem parecer inconscientes do que está à vista e/ou processar as palavras como “ruído”. Essas situações podem parecer muito curiosas.

Três outros sistemas sensoriais menos conhecidos também são frequentemente afetados por muitos no espectro do autismo. Existem o sistema vestibular (equilíbrio), termo percepção (calor, frio), o sistema proprioceptivo (movimentos musculares/articulares, coordenação, planejamento motor e sentido do seu corpo no espaço, dispraxia, hipermobilidade articular) e o sistema interoceptivo (estado das funções internas do corpo, incapacidade de perceber fome, urina, fezes).

Há algumas evidências de que pessoas autistas podem ter um tempo prejudicado e aprimorado percebendo suas próprias funções corporais. Isso é chamado de interocepção atípica ou disfunção interoceptiva (Shah et al., 2016). Há relatos de pouca consciência da necessidade de ir ao banheiro, beber água (por sede) e/ou comer (por fome). Algumas esposas relatam que precisam lembrar o parceiro autista em se alimentar ou beber água, principalmente quando os parceiros estão profundamente engajadas em uma atividade que tira todo o seu foco do mundo ao seu redor.

Problemas sensoriais podem afetar praticamente todos os aspectos da vida, desde a seleção de roupas, alimentos, roupas de cama e móveis que sejam confortáveis para ambos os parceiros, até quais ambientes e atividades podem ser agradáveis para ambos. Existem situações em que o processamento sensorial elevado pode ser um trunfo, como a capacidade de processar informações visuais rapidamente e/ou de maneiras únicas.

As necessidades/problemas sensoriais podem mudar ao longo do tempo e até variar de dia para dia. Como adulto, seu parceiro provavelmente aprendeu a lidar e/ou evitar vários estímulos sensoriais no ambiente. Algumas estratégias comuns usadas para limitar efetivamente a sobrecarga sensorial ambiental incluem óculos escuros, protetores para os ouvidos, chapéus ou escolhas de roupas específicas. Algumas pessoas gostam de manter curtos períodos de silêncio ou isolamento que podem ser calmantes e ajudar a combater a sobrecarga sensorial.

Em casa, dormir na escuridão total e usar um cobertor pesado pode ser útil para alguns. Em casa, é mais fácil ajustar a iluminação e controlar os sons e cheiros no ambiente. Às vezes, será importante obter acompanhamento com Terapeuta Ocupacional treinado em integração sensorial.

Problemas sensoriais também podem afetar a intimidade. Se houver problemas sensoriais no quarto, eles podem ser abordados com melhor compreensão, paciência e desenvolvimento de estratégias para acomodar as necessidades de ambos os parceiros. Você e seu parceiro podem discutir várias diferenças sensoriais e considerar ajustes específicos que serão bem-sucedidos.

Em situações em que uma pessoa autista está estressada, ela pode experimentar mais facilmente uma sobrecarga sensorial e, como resultado, desligar ou possivelmente experimentar um “colapso”. Um adulto autista autoconsciente, geralmente pode reconhecer sinais de alerta precoce e desenvolver estratégias para sair e se acalmar. Ambos os parceiros que estão cientes disso podem trabalhar juntos, para que ambos sejam acomodados.

Muitos casais desenvolvem sinais para comunicar se o parceiro autista está ficando superestimulado e precisa de uma pausa. Uma pausa pode assumir várias formas que podem ser discutidas com antecedência.

3. Aprenda e use estratégias de comunicação

A comunicação é importante em todos os relacionamentos. A comunicação social é um déficit para uma pessoa autista. A comunicação não verbal, como a interpretação de expressões faciais, gestos e entonação vocal, muitas vezes é extremamente difícil. A comunicação verbal como entender metáforas/piadas/ironia/sarcasmo pode ser difícil para as pessoas autistas, bem como iniciar uma conversa social que não seja sobre um tópico do seu interesse. Essas dificuldades se devem a uma diferença na neurologia e não à falta de motivação.

É útil para o seu parceiro autista se a sua comunicação for clara, objetiva, calma e previsível. A pessoa com TEA geralmente deseja atender às necessidades de seu parceiro, uma vez que entenda como atender a essas necessidades de forma objetiva. Comunicar explicitamente suas necessidades sociais, emocionais, mentais, físicas, incluindo sexuais, é importante. Juntos, os parceiros devem discutir informações sobre expectativas comportamentais.

Pense em termos de explicação em vez de correção e julgamentos. Diga ao seu parceiro autista suas expectativas e faça com que ele lhe diga as expectativas dele.

Muitas vezes, você precisará fornecer instruções muito explícitas e concretas que seu parceiro possa seguir. Por exemplo, se você precisar que seu parceiro ajude em uma tarefa como lavar a roupa, dê instruções passo a passo sobre o que, quando e como as roupas precisam ser lavadas. Se o seu parceiro não consegue descobrir o que lavar, talvez seja necessário ter um sistema de preparação de cestos de roupa suja. Por exemplo, cestos circulares podem ser usados para roupa suja e cestos quadrados para roupa limpa.

Você pode precisar dar ao seu parceiro autista informações explícitas e prática sobre como dar abraços. Pode parecer que seu parceiro não quer ser afetuoso com você, mas lembre-se de não julgar suas ações e necessidades através de suas lentes fora do espectro. Quaisquer áreas de necessidade são importantes para abordar em detalhes. Comunicar-se de forma muito literal e concreta será importante para muitos aspectos da vida. Alguns casais acham que mensagens de texto, e-mails e/ou informações escritas em papel, notas adesivas, calendários ou quadros de limpeza são muito vantajosos.

Considere agendar um horário todos os dias para sentar e se comunicar. Sentar-se lado a lado pode funcionar melhor para a comunicação. Pessoas autistas quase universalmente dizem que é difícil processar informações verbais enquanto mantém contato visual. Isso seria especialmente verdadeiro ao discutir as necessidades de cada um. Esse tempo juntos pode ajudar bastante a tornar a vida mais satisfatória e manter o vínculo como casal saudável.

Novamente, considere o uso de informações visuais (notas, e-mail, quadro branco, até mesmo exemplos de livros ou outras mídias visuais) para transmitir ou complementar mensagens verbais. Seja criativo. A informação visual é muito mais fácil de processar para a maioria dos indivíduos no espectro do autismo e pode ser usada como um recurso permanente quando a ansiedade, a sobrecarga sensorial ou as habilidades de funcionamento executivo estão causando desafios para nossos parceiros no espectro do autismo.

Perceba que você pode não entender a perspectiva do seu parceiro. Procure esclarecer. Reconheça que seu parceiro pode ter dificuldade em pedir (iniciar) esclarecimentos e/ou mesmo saber que o esclarecimento é necessário.

Parceiros neurotípicos não podem interpretar o comportamento da pessoa autista através de seu filtro fora do espectro e assumir que eles entendem o significado de um comportamento específico de seu parceiro autista. Da mesma forma, o parceiro autista pode ter dificuldade em entender suas próprias necessidades e ou da parceira (o) neurotípica(o). Cada parceiro deve identificar suas necessidades e contar ao seu parceiro autista, ir negociando. Pode não parecer genuíno se você tiver que dizer ao seu parceiro autista cada passo para atender às suas necessidades. Embora possa ser difícil no começo, não pense nisso como significando que seu parceiro autista não se importa. Pense nisso como um passo importante para melhor apreciar, confiar e respeitar uns aos outros, a neurodiversidade humana.

4. Encontre saídas para relaxar, se divertir em conjunto e individualmente

Você e seu parceiro provavelmente têm maneiras diferentes de aliviar o estresse e o cansaço do cotidiano. Todo mundo é diferente e tem maneiras diferentes de relaxar. Sendo um casal neurodiverso, pode haver mais diferenças que você experimentará que, a princípio, desafiarão vocês dois. É importante que ambos aprendam suas maneiras pessoais de desestressar e expressar essas necessidades um ao outro. Os parceiros também devem respeitar as necessidades e os meios um do outro para se livrar da tensão e da ansiedade. Às vezes, isso significa atividades separadas e/ou “paralelas”. O parceiro, no espectro do autismo, pode precisar de muito tempo para si mesmo e/ou tempo “extra” para perseguir seus interesses especiais.

A transição do trabalho para casa pode ser estressante para o seu parceiro no espectro do autismo. Uma “pausa sozinha” imediatamente ao chegar em casa é frequentemente descrita como “crítica” por homens no espectro do autismo. Sem entender e planejar essa pausa de transição, pode ocorrer um obstáculo no relacionamento.

Sua necessidade de se comunicar e se conectar com seu parceiro pode ter que esperar e isso pode ser muito frustrante. Os casais podem usar um sistema visual, como uma placa de limpeza para comunicar seu nível de estresse nessa hora do dia. Planeje o tempo inicial do seu parceiro sozinho quando ele chegar em casa. Defina 30 minutos designados ou o que for razoável e possível em sua situação. Depois pode ser agendado um tempo juntos ou com as crianças. Se necessário, mais tempo sozinho pode ser agendado para mais tarde à noite. Tarefas e outras tarefas e atividades também podem ser agendadas. Noites previsíveis podem ajudar a aliviar o estresse e garantir momentos mais relaxantes e agradáveis juntos como casal.

O tempo de lazer juntos pode ser uma importante oportunidade de união. Incentive o humor em sua vida juntos. Isso ajudará a melhorar o relacionamento e a aliviar um pouco do estresse “extra”. Pode ser maravilhoso se você puder encontrar as atividades certas para desfrutar juntos. Isso pode incluir cada um de vocês explorando interesses especiais juntos. Pode exigir paciência extra no início, especialmente se alguns limites forem importantes para estabelecer. Atividades paralelas também podem ser exploradas. Vocês dois estão na mesma sala ou espaço, mas podem estar envolvidos em atividades diferentes por um período de tempo. Pode ser útil decidir com antecedência o período de tempo designado. Um temporizador, alarme no celular ou outro lembrete concreto pode ser definido. Seja criativo!

Eventos sociais geralmente são difíceis para uma pessoa autista e você provavelmente será o responsável por organizar os eventos sociais. Você pode ser aquele com mais interesse nesses eventos e ter as melhores habilidades “neurológicas” (ou seja, capacidades de função executiva) para tomar as providências. Seu parceiro pode estar concordando com suas ideias porque ele quer agradá-lo e/ou vai gostar da maioria das coisas se você estiver lá. Eles também costumam se divertir quando souberem o que esperar. Pode ser benéfico se um “papel” puder ser estabelecido para seu parceiro em várias funções sociais. Essa função pode ser qualquer tarefa que contribua para o evento, como ajudar na preparação ou verificação de bebidas ou alimentos.

Discuta e planeje o que isso envolveria. Além disso, discuta opções para um espaço tranquilo ou um lugar para se retirar para fazer uma pausa durante as atividades sociais.

Seu parceiro autista pode precisar de um plano real de “fuga” quando a socialização ficar muito avassaladora ou muito estimulante. Como mencionado anteriormente, um plano que os casais costumam usar é dirigir dois carros para que o parceiro ASD possa sair antes que seu nível de estresse fique muito alto, resultando em um desligamento ou colapso.

Você pode ter descoberto que seu parceiro está muito contente em passar muito tempo perseguindo um interesse especial. Esta pode ser uma técnica calmante importante. É importante que esse tempo seja equilibrado com outras atividades da vida e com o tempo de casal. Se possível, esse horário pode ser agendado, mas flexível. Em momentos de maior estresse para o seu parceiro autista, ele pode precisar de mais tempo perseguindo seus interesses e/ou tempo sozinho.

Ao mesmo tempo, talvez seja necessário agendar um horário para seus interesses individuais. Se isso incluir socialização adicional, talvez seja necessário agendar tempo com amigos, ingressar em clubes, ser voluntário e/ou buscar outros interesses que envolvam outras pessoas. Você pode descobrir que precisará dessas atividades externas e oportunidades sociais para se conectar com outras pessoas, além de sua satisfação emocional com seu parceiro.

5. Encontre suporte profissional para pessoas autistas e para você 

Pode ser importante e necessário encontrar apoio profissional para os problemas de comunicação e sensoriais que você encontra como casal. Também pode ser útil abordar questões de função executiva com um profissional. Como mencionado anteriormente, as habilidades das funções executivas podem ser muito fracas para alguém no espectro do autismo.

Esteja ciente de que pessoas autistas correm maior risco de depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e/ou outros transtornos de saúde mental (Roy et. al., 2015; Croen et. al., 2015) que levam a sérios prejuízos. A baixa autoestima devida as frustrações, estresse constante, interações e experiências sociais negativas, também podem afetar a sua saúde mental como parceira (o) neurotípico num casamento neurodiverso.

Portanto, você também pode experimentar seus próprios problemas de saúde mental. Aproximadamente 40% da população geral atende aos critérios para um diagnóstico de saúde mental pelo menos uma vez na vida. Para pessoas autistas, acredita-se que a taxa de sintomas de saúde mental concomitantes seja de pelo menos 69% (Lever & Geurts, 2016). Você também pode estar em maior risco de sofrer de ansiedade e/ou depressão como efeito de seu relacionamento com seu parceiro autista, especialmente se ele não foi diagnosticado e/ou não foi tratado com especialistas em autismo, até o momento.

A pessoa autista pode precisar de períodos confiáveis de isolamento social. Isso pode ser difícil de entender e não levar para o lado pessoal. Seu parceiro também pode ter desenvolvido um padrão de se retirar para seus interesses especiais, em parte como um mecanismo de enfrentamento e não saber o que fazer para fazê-lo feliz. Isso pode ser devido a diferenças e dificuldades de comunicação, de modo que ele não tenha as informações necessárias para realizar seus desejos.

Com o tempo e ao compartilhar uma casa, ocorrerão mal-entendidos e problemas. Devido à natureza do TEA, você pode sentir falta de comunicação e contato emocional com seu parceiro. À medida que você tenta trabalhar em seu relacionamento, é provável que o contato com os outros se torne mais limitado, causando mais solidão. Isso pode levar à depressão e talvez até a sentimentos de desespero. Por várias razões, pode ser importante que você e seu parceiro sejam avaliados e tratados para quaisquer condições de saúde mental.

É muito importante trabalhar com um profissional que tenha conhecimento e experiência trabalhando com adultos no espectro do autismo. Se um terapeuta com conhecimento e experiência sobre TEA não estiver disponível, você desejará encontrar alguém que tenha interesse em apoiar relacionamentos neurodiversos e que tenha qualidades adequadas para alguém com autismo.

A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) é uma prática baseada em evidências usada com adultos com desenvolvimento neurotípico, bem como aqueles no espectro do autismo.

As pesquisas de Cooper, et.al., (2018) e Spain et.al. (2019), mostraram que adaptações da Terapia Cognitiva Comportamental – TCC, como uma abordagem mais estruturada, concreta pode ser uma opção importante para atender às necessidades de alguém no Transtorno do Espectro do Autismo.

A jornada de cada um é única. Com os profissionais especialistas em autismo, ferramentas certas, compromisso e apoio, você e seu parceiro autista podem experimentar um relacionamento duradouro, amoroso, respeitoso e gratificante.

Referências bibliográficas:

Mahler, K. (2017). Interception of the eighth sensory system: practical solutions to improve self-regulation, self-awareness and social understanding. Lenexa, KS: AAPC Publishing.

Mendes, EA (2015). Marriage and long-lasting relationships with Asperger’s syndrome (autism spectrum disorder). Philadelphia, PA: Publisher Jessica Kingsley.

Myles. BS, Mahler, K. & and Robbins, LA (2014). Sensory issues and spectrum of autism of high functioning and related disorders: practical solutions to give meaning to the world (2nd ed.). Mission Shawnee, KS: AAPC Publication.

Moreno, S., Wheeler, M. and Parkinson, K. (2012). Partner’s guide to Asperger’s syndrome. Philadelphia, PA: Publisher Jessica Kingsley.

Peters, T. & Peters, L. (2016). Our socially awkward marriage: stories of an Asperger’s relationship. Tulsa, OK: Brookside Press.

Rowlands, K. (2017). Stepping on eggshells: Confessions of an Asperger’s wedding and how we made it work. Northumberland, England: Old Tavern House.

Stanford, A. (2015). Asperger syndrome (Autism Spectrum Disorder) and long-term relationships (2nd ed.). Philadelphia, PA: Publisher Jessica Kingsley.

Thompson, B. (2008). Asperger couples counseling. Philadelphia, PA: Publisher Jessica Kingsley.

A Psicóloga Marina Almeida é especialista em Transtorno do Espectro Autista. Realizo psicoterapia online ou presencial para pessoas neurotípicas e neurodiversas.

Realizo avaliação neuropsicológica online e presencial para diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista em Adultos e TDAH.

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Consultora Ed. Inclusiva, Psicóloga Clínica e Escolar

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