EFEITO CONTÁGIO EMOCIONAL EM ADOLESCENTES – UM SOFRIMENTO PSÍQUICO ATUAL?

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Os transtornos emocionais geralmente surgem durante a adolescência. Além da depressão ou da ansiedade, os adolescentes com essa condição também podem sentir irritabilidade, frustração ou raiva excessivas. Os sintomas podem se sobrepor em mais de um transtorno, com mudanças rápidas e inesperadas no humor e explosões emocionais. Os adolescentes mais jovens também podem desenvolver sintomas físicos como dor de estômago, dor de cabeça, taquicardia, sudorese ou náusea.

A retirada ou a separação de familiares, colegas ou comunidade podem exacerbar o isolamento e a solidão. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio.

A expressão “contágio emocional” é descrita por Hatfield, Caciopp e Rapson (1994) como “uma tendência pessoal de mimetizar e sincronizar expressões faciais e identificar, vocalizações faladas e cantadas, posturas e movimentos de outra pessoa de modo a converter emocionalmente”. Trata-se de um fenômeno multiplicador, reveste-se de características psicológicas, comportamentais e sociais. Portanto, é um fenômeno que se processa em vários níveis: a emoção é percebida e interpretada por outro(s), o que desencadeia uma experiência emocional significativa ou complementar. Desse modo, indivíduo é atingido por uma sincronia emocional, de comportamento e denotando tanto uma utilidade adaptativa para grupos sociais quanto para o indivíduo.

O conceito de contágio emocional vem sendo discutido com respeito às organizações de trabalho e em últimas pesquisas este fenômeno também aparece ligado as redes sociais. Em relação à primeira, o sucesso da organização não depende apenas de um indivíduo, mas do grupo. Na segunda, o contato opera em um nível completamente inconsciente e de forma automática, intensificando as emoções pessoais. Por exemplo, uma agressão nas redes sociais tende a induzir um estado emocional entre participantes do grupo coletivamente podendo desencadear ataques de ódio coletivo, com comunicação violenta e ameaçadoras que pode ser replicado em escala, até mesmo, levando a um comportamento na vida offline, por exemplo, começar perseguindo alguém obsessivamente com assédios morais, bullying, surto psicótico, ideação suicida e inclusive podendo causar algum dano físico em uma pessoa que foi deslocado o ódio.

Posso citar outros exemplos do efeito contágio emocional: apologia ao suicídio em filmes ou em grupos na internet ou fóruns na Deep web, cyberbullying, grupos fundamentalistas de ideologias políticas, étnicas, sexistas e ou religiosas, apologia a anorexia, jogos virtuais sádicos, dependência a internet, identificação com o agressor ou “salvador” ou revolucionário, as consequências levam a perda de teste da realidade, vulnerabilidade da autoestima, negação de riscos, mecanismos de onipotência/impotência, empobrecimento afetivo amoroso das relações socioemocionais e eróticas-afetivas, todos estes comportamentos levam a perda do laço social afetivo, prejuízos da troca simbólica, precariedade do diálogo respeitoso com continência afetiva e segura, dificuldades em lidar com as diferenças, envolvendo bolhas narcisistas aceitas ou que devem ser excluídas.

O emprego do conceito de contágio emocional, é reconhecido na análise das redes sociais (Kramer, Guillory e Hancock, 2014; Covielloet al., 2014), no processamento de linguagem natural (Branigan et al. 2010), na modelagem e simulação de agentes personificados ou não (Tsai et al., 2012; Pereira et al., 2012, na expressão de emoções (Choi et al., 2015), nos sistemas de circulação entre áreas (Masthoff et al., 2014); Quijano-Sanchez et al ,2016).

Outro fenômeno entre jovens são os hikikomoris. O termo hikikomori se refere tanto à condição quanto às pessoas que são afetadas por ela, aquelas que vivem “isoladas do mundo”. Este grupo de hikikomoris, já foram “classificados” por alguns pesquisadores, como autistas, personalidade esquizoide, esquizofrenia, mas até o momento não há conclusões definitivas para este fenômeno de sofrimento psíquico que está aumentando.

O crescente número de casos fora do Japão está levando muitos a questionarem se trata de uma questão puramente cultural, como a “cultura da vergonha” que impede buscar ajuda psicológica, altas expectativas da cultura japonesa, globalização, fatores socioeconômicos, entre outros fatores.

Em um estudo de 2015, pesquisadores nos Estados Unidos, na Coreia do Sul e na Índia encontraram casos em seus países que correspondiam aos critérios clínicos, sendo assim não é um fenômeno exclusivo que está ocorrendo no Japão.

Freud não usou o termo “histeria coletiva”. O que encontramos em sua obra e que nos permite pensar em algo que poderia ser compreendido desta forma é um exemplo que ele faz uso em seu livro “Psicologia das massas e análise do ego” (Freud, 1921). Nessa obra, Freud dedica-se a descrever a dinâmica dos processos grupais e também está interessado em desenvolver o conceito da identificação a partir de três fontes distintas:

O que aprendemos dessas três fontes pode ser assim resumido: primeiro, a identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto; segundo, de maneira regressiva, ela se torna sucessão para uma vinculação de objeto libidinal, por meio de introjeção do objeto no ego; e, terceiro, pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que não é objeto de pulsão sexual. Quanto mais importante essa qualidade comum é, mais bem-sucedida pode tornar-se essa identificação parcial, podendo representar assim o início de um novo laço.

O exemplo que utiliza do terceiro tipo de identificação é o das “moças do internato”. A situação é de uma moça que recebe uma carta de alguém por quem está apaixonada, que lhe causa ciúmes e ela tem uma “crise de histeria”. A crise da moça apaixonada desperta como reação o fato de que suas amigas que sabem da situação compartilham da crise, num mecanismo que Freud subscreve como “infecção mental” ou “identificação baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situação”.

Freud assinala que esse efeito não se dá por simpatia, mas por uma “identificação ao desejo” das outras moças que também desejariam ter um romance e, por isso, compartilham o sofrimento envolvido na situação. Disso, ele argumenta que o que acontece em uma cena como a descrita acima pode ser compreendido como identificação por meio do sintoma, na qual há uma analogia significante entre o eu da moça da carta e o das outras, isto é: há um sinal de um ponto de coincidência entre os “egos”. Desse “ataque histérico” em série, pode-se então supor uma histeria que é coletiva, ou seja: uma histeria que se compartilha e, daí, sugerir de onde é que se extraiu o termo “histeria coletiva” – que não está associado com a clínica da neurose histérica.

Não é possível localizar as razões de cada um que desencadeiam esse tipo de reação em série e isso que se diz comum fica aprisionado à imagem de ataque histérico, mesmo que não se trate de um. Se voltarmos ao próprio texto de Freud, em uma de suas passagens, ele pressupõe que o sujeito no coletivo “abre mão” daquilo que lhe é individual para agregar-se ao grupo, esfacelando assim o que lhe é particular. Pois, em grupo, o sujeito está exposto a uma condição que afrouxaria as repressões inconscientes. O afrouxamento das repressões inconscientes seria uma característica constitutiva da sociedade humana, na qual “pouca originalidade e coragem pessoal podem encontrar-se nela, de quanto cada indivíduo é governado por estas atitudes da mente grupal que se apresentam sob formas tais como características raciais, preconceitos de classe, opinião pública etc.” (Freud, 1921).

É também neste texto de Freud que encontramos que os sujeitos se juntam em grupos por uma “unidade”, isto é: por aquilo que os deixa em “comum-unidade”. Essa ideia de unidade e de pertencimento subsistiria em coletivos, dando certo ar de “identidade”, ou seja: o laço entre os membros de um grupo estaria delineado por esta demanda social do sujeito de uma identificação que se baseia na ideia unificante, disso que é comum a mim e ao outro, numa associação positiva – o que legitimaria uma espécie de fantasia da totalidade.

Em “O Seminário, livro 17: O avesso da Psicanálise” (1969-70), Jacques Lacan elabora a teoria dos quatro discursos entendido como estratégia de colocar estruturalmente os modos de aparelhamento de gozo ou como a pulsão é enquadrada e os laços sociais se estabelecem a partir do lugar que ocupa o sujeito falante. É um passo adiante na teoria freudiana das organizações coletivas, elaborado a partir dos três ofícios impossíveis ou posições insustentáveis, conforme indicados por Freud (1925, 1937): educar, governar e curar (analisar); acrescido do fazer desejar e posteriormente do discurso do capitalista.

A psicanalista francesa Colette Soler (2016), explica que o discurso capitalista tem a marca do “desfazer” laços sociais, mas também pode ser considerado “aquele que multiplicou ao máximo as possibilidades de relação virtual, oferecendo a sociedade instrumentos inéditos de acesso, como a internet e redes sociais, experiência sem precedentes na história e que alargam a circunferência dos investimentos libidinais a dimensões até mesmo planetárias”.

Nesta lógica do discurso capitalista, deixa-se de lado as coisas do amor (compaixão, solidariedade, gratidão, respeito, ética, diálogo). É nesse sentido que os laços sociais se tornam precários, pois ao se estabelecerem a partir da lógica do discurso capitalista, o amor é deixado de fora e se consolida uma relação direta e imediata entre os sujeitos, do mesmo modo que com as coisas. E, acima de tudo, essas são relações descartáveis (cultura do cancelamento), deixam de ter seu “valor de uso” quando tornam-se desnecessárias ou quando são frustradoras ao meu narcisimo. Isso posto, a “histeria coletiva” ou o “efeito de contágio” poderia ser esse tipo de agregação frouxa, associada a uma aglomeração que se deu em função de uma satisfação imediatista, sem que fosse capaz de fazer perguntas, de interrogar o discurso do outro. A verdade, como vimos, não aparece como enigma a ser decifrado, mas como saber absoluto aceito pelo grupo e pelo indivíduo. A saída que temos para os impasses sociais, segundo Lacan é a construção do laço individual e social através da ética da responsabilidade, portanto, o que me implica como sujeito e não mais apenas o que se explica como sujeito.

Outra ponderação importante na contemporaneidade é caracterizada por uma sociedade sem pais, a sociedade do cansaço, a sociedade da informação levando a um sentimento de vazio afetivo nas crianças e jovens. A família contemporânea se organiza de uma forma diferente, com precariedade de diálogo afetivo, sem funções parentais muito definidas, o consumismo, o trabalho e tecnologia veloz tomaram a cena.

Em todo o mundo, a depressão é a 9ª causa de doença e incapacidade entre todos os adolescentes, a ansiedade é a 8ª principal causa. Transtornos emocionais podem ser profundamente incapacitantes para o funcionamento de um adolescente, afetando o trabalho e a frequência escolares.

As recomendações segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS (2019) de promoção e prevenção a saúde mental dos adolescentes visam fortalecer os fatores de proteção e melhorar alternativas aos comportamentos de risco.

Programas de promoção da saúde mental para todos os adolescentes e programas de prevenção em risco dessas condições exigem uma abordagem multinível com plataformas de distribuição variadas – por exemplo, mídias digitais, ambientes de saúde ou assistência social, escolas ou comunidade.

Exemplos de atividades de promoção e prevenção:

  • intervenções psicológicas individuais online, em grupo ou autoguiadas;
  • intervenções focadas na família, como treinamento de habilidades do cuidador, incluindo intervenções que abordam as necessidades dos cuidadores;
  • intervenções nas escolas, como:
  • mudanças organizacionais para um ambiente psicológico seguro e positivo;
  • ensino sobre saúde mental e habilidades para a vida;
  • treinamento de pessoal para a detecção e manejo básico do risco de suicídio; e
  • programas escolares de prevenção para adolescentes vulneráveis a condições de saúde mental;
  • intervenções baseadas na comunidade, como liderança de pares ou programas de orientação;
  • programas de prevenção dirigidos a adolescentes em situação de vulnerabilidade, como aqueles afetados por ambientes humanitários frágeis e grupos minoritários ou discriminados;
  • programas para prevenir e administrar os efeitos da violência sexual em adolescentes;
  • programas multissetoriais de prevenção ao suicídio;
  • intervenções multiníveis para prevenir o abuso de álcool e substâncias;
  • educação sexual integral para ajudar a prevenir comportamentos sexuais de risco; e programas de prevenção à saúde.

A promoção da saúde mental como intervenção preventiva e do bem-estar contribuem para que os adolescentes construam resiliência e possam lidar melhor com situações difíceis, desafios ou adversidades transitórias.

Atendimento gratuito para púberes e adolescentes da UNICEF:

O Pode Falar é um canal de ajuda em saúde mental para você que tem de 13 a 24 anos.

https://www.podefalar.org.br/

Referências Bibliográficas:

Barsade, S.G. (201) O efeito cascata: contágio emocional e sua influência no comportamento do grupo. Administrative Science Quaterly.

Freud, S. (1921/2006). Psicologia de grupo e análise do ego. Em: S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1925/2006). Prefácio a Juventude Desorientada, de Aichhron. Em: S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. XIX). Rio de Janeiro.

Lacan, J. (1968-1969/2008). O seminário, livro 16: de um outro ao Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

Lacan, J. (1969-70/1992). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

Marina S. R. Almeida

Consultora Ed. Inclusiva, Psicóloga Clínica e Escolar

Neuropsicóloga, Psicopedagoga e Pedagoga Especialista

Licenciada no E-Psi pelo Conselho Federal de Psicologia para atendimento de Psicoterapia on-line

CRP 06/41029

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