EVIDÊNCIAS ATUAIS NA RELAÇÃO ENTRE SÍNDROME DE EHLERS-DANLOS E TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA

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A relação entre a Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado destaque na literatura científica contemporânea, especialmente após metanálises recentes demonstrarem uma coocorrência significativamente maior do que o esperado ao acaso.

Estudos publicados entre 2020 e 2026 apontam para mecanismos genéticos compartilhados, sobreposição fenotípica e prevalências elevadas de hipermobilidade articular em indivíduos autistas.

Este artigo apresenta uma síntese narrativa das evidências atuais sobre prevalência, incidência, diagnóstico e tratamento.

Introdução

Durante décadas, Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram tratados como condições clínicas independentes, atendidas por especialidades distintas geneticistas e reumatologistas no caso da SED, psiquiatras e neuropediatras no caso do TEA.

Essa fragmentação dificultou a identificação de comorbidades e atrasou o reconhecimento de uma relação que hoje é sustentada por evidências robustas.

Como afirma Rodrigues (2026), “a mesma pessoa podia transitar por anos entre consultórios sem que ninguém fizesse a pergunta óbvia: esses dois diagnósticos aparecem juntos com mais frequência do que o acaso explicaria?”

Prevalência e Incidência na População e por Gênero

A metanálise mais abrangente sobre o tema, conduzida por Baeza‑Velasco et al. (2025), analisou 20 estudos e encontrou:

  • Prevalência global de hipermobilidade articular em indivíduos autistas: 22,3%, chegando a 31% quando avaliada clinicamente.
  • Prevalência de SED ou Transtornos do Espectro da Hipermobilidade (HSD) em amostras autistas: 27,9%, alcançando 39% em estudos com diagnóstico clínico formal.

Esses números são expressivos: quase 4 em cada 10 pessoas autistas avaliadas clinicamente apresentam critérios para SED ou HSD.

Incidência por Gênero

Embora os estudos citados não apresentem dados específicos por gênero, pesquisas anteriores sobre SED indicam maior prevalência em mulheres, enquanto o TEA é mais frequente em homens.

A coexistência das duas condições sugere que mulheres autistas podem estar subdiagnosticadas, especialmente nos subtipos de SED com manifestações mais sutis, uma hipótese levantada por Casanova et al. (2020), que destaca padrões de camuflagem comportamental e clínica.

Risco Aumentado

Segundo o geneticista Dr. Willian de Souza Santos, pessoas com SED têm sete vezes mais risco de apresentar TEA em comparação à população geral.

Mecanismos Biológicos e Genéticos Compartilhados

A revisão de Casanova et al. (2020) identificou 35 genes associados simultaneamente à hipermobilidade e ao autismo. Ao mapear esses genes em redes de interação proteica, observou-se que:

  • Os conjuntos genéticos de SED e TEA formam agrupamentos extensos, sugerindo interações substanciais.
  • mecanismos moleculares compartilhados, incluindo vias relacionadas ao colágeno, matriz extracelular, imunidade e regulação autonômica.

Esses achados sustentam a hipótese de que SED/TEA pode representar um subtipo biológico dentro do espectro autista, como proposto por Casanova e colaboradores.

Diagnóstico

O diagnóstico da SED e sua relação com o TEA envolve desafios clínicos importantes.

Diagnóstico da SED

  • SED Hipermóvel (hEDS):
    • Representa mais de 50% dos casos.
    • Não possui marcador genético identificado.
    • Diagnóstico puramente clínico, baseado nos critérios de 2017.
  • SED Clássico e Vascular:
    • Associados a mutações em genes como COL5A1, COL5A2.
    • Diagnóstico confirmado por testes genéticos.

Diagnóstico do TEA

O TEA é diagnosticado por avaliação clínica comportamental e neuropsicológica, seguindo critérios do DSM‑5 TR e CID-11.

A presença de hipermobilidade, dor crônica, fadiga ou sintomas autonômicos deve ser considerada como possível indicador de comorbidade com SED.

Desafios Clínicos

A “invisibilidade” da SED, especialmente em mulheres contribui para atrasos diagnósticos.

Sintomas como dor difusa, fadiga, ansiedade e distúrbios gastrointestinais podem ser erroneamente atribuídos apenas ao TEA, mascarando a condição do tecido conjuntivo.

Tratamento

Não há cura para SED nem para TEA, mas o manejo integrado melhora significativamente a qualidade de vida.

Tratamento da SED

  • Fisioterapia especializada para estabilização articular
  • Gerenciamento da dor (analgésicos, fisioterapia, técnicas de modulação autonômica)
  • Acompanhamento cardiológico e gastroenterológico conforme o subtipo.
  • Educação postural e proprioceptiva

Tratamento do TEA

  • Acompanhamento com Psiquiatra ou Neurologista
  • Acompanhamento com Psicólogo (Terapia Cognitiva Comportamental – TCC)
  • Terapia Ocupacional com foco em integração sensorial
  • Apoio psicossocial e educacional

Abordagem Integrada

Autores como Rodrigues (2026) defendem que o tratamento deve ser sistêmico, considerando presença de:

  • Dor crônica
  • Fadiga
  • Disfunção Autonômica
  • Comorbidades como: TDAH, Ansiedade e Depressão

Essa abordagem integrada é especialmente relevante porque muitos sintomas atribuídos ao TEA podem ser exacerbados pela SED, como hipersensibilidade sensorial, fadiga e dificuldades motoras.

Discussão

As evidências atuais apontam para uma relação robusta e multifatorial entre SED e TEA.

A prevalência elevada de hipermobilidade em indivíduos autistas, os mecanismos genéticos compartilhados e a sobreposição fenotípica sugerem que essas condições não devem ser avaliadas isoladamente.

A literatura recente reforça a necessidade de:

  • Protocolos clínicos integrados
  • Formação interdisciplinar
  • Triagem sistemática de hipermobilidade em indivíduos autistas
  • Investigação genética quando indicada.

A falta de reconhecimento dessa comorbidade contribui para sofrimento prolongado, diagnósticos tardios e tratamentos inadequados.

Conclusão

A relação entre Síndrome de Ehlers-Danlos e Transtorno do Espectro Autista é hoje sustentada por evidências epidemiológicas, genéticas e clínicas.

A prevalência elevada de hipermobilidade e SED em indivíduos autistas exige uma mudança de paradigma na prática médica, com integração entre especialidades e maior atenção aos sinais físicos frequentemente negligenciados.

O avanço das pesquisas, especialmente após 2020, aponta para uma nova compreensão da heterogeneidade do TEA e da importância do tecido conjuntivo na neurodesenvolvimento.

A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.

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Referências bibliográficas

Baeza‑Velasco, C. et al. (2025). Autism. Metanálise sobre TEA, hipermobilidade e SED.

Casanova, E. et al. (2020). Journal of Personalized Medicine. Revisão genética sobre autismo e hipermobilidade.

Rodrigues, F. A. A. (2026). CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito. Artigo sobre comorbidade negligenciada entre SED e TEA.

Santos, W. S. (2026). Apae Curitiba. Relato clínico sobre diagnóstico e prevalência de SED em TEA.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

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