EVIDÊNCIAS ATUAIS NA RELAÇÃO ENTRE SÍNDROME DE EHLERS-DANLOS E TDAH

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A relação entre a Síndrome de Ehlers-Danlos (SED), especialmente o subtipo hipermóvel (hEDS), e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem recebido crescente atenção científica.

Estudos epidemiológicos, clínicos e neurobiológicos publicados entre 2020 e 2026 sugerem uma associação robusta entre hiper­mobilidade articular, alterações do tecido conjuntivo e sintomas neuropsiquiátricos, incluindo desatenção, impulsividade e hiperatividade.

Este artigo revisa criticamente as evidências atuais, discute possíveis mecanismos fisiopatológicos compartilhados e apresenta implicações clínicas para diagnóstico e manejo integrado.

Introdução

A Síndrome de Ehlers-Danlos é um grupo de doenças hereditárias do tecido conjuntivo caracterizadas por hiper­mobilidade articular, fragilidade tecidual e manifestações sistêmicas multissistêmicas.

O subtipo hipermóvel (hEDS) é o mais prevalente e, apesar de não possuir marcador genético definido, apresenta fenótipo clínico consistente envolvendo dor crônica, fadiga, instabilidade articular e disfunção autonômica.

O TDAH, por sua vez, é um transtorno do neurodesenvolvimento com prevalência estimada entre 5% e 7% em crianças e 2% a 5% em adultos. Caracteriza-se por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, com impacto funcional significativo.

Nos últimos anos, estudos têm sugerido que indivíduos com hEDS ou hiper­mobilidade generalizada apresentam maior prevalência de TDAH e outros transtornos neuropsiquiátricos.

Essa convergência tem motivado investigações sobre mecanismos biológicos compartilhados, incluindo alterações proprioceptivas, disfunção autonômica e possíveis interações entre tecido conjuntivo e neurodesenvolvimento.

Evidências Epidemiológicas Ampliadas

Prevalência de TDAH em indivíduos com SED/hEDS

Estudos populacionais recentes reforçam a associação entre SED e TDAH. Cederlöf et al. (2026) analisaram dados de mais de 1.700 indivíduos diagnosticados com SED ou síndrome de hipermobilidade e observaram que esses pacientes apresentavam probabilidade 5,6 vezes maior de receber diagnóstico de TDAH em comparação à população geral.

Além disso, a prevalência de transtornos de ansiedade e depressão também foi significativamente maior.

Em adolescentes com hEDS, a prevalência de TDAH pode alcançar 46%, conforme estudos clínicos conduzidos em centros especializados em distúrbios do tecido conjuntivo. Em crianças, a prevalência gira em torno de 16%, valor três vezes superior ao observado na população pediátrica geral.

Prevalência de hipermobilidade em indivíduos com TDAH

A relação inversa também tem sido investigada. Um estudo publicado em Frontiers in Psychiatry em 2025 demonstrou que adultos com TDAH são 4,34 vezes mais propensos a apresentar hiper­mobilidade generalizada.

Aproximadamente 51% dos participantes com TDAH preencheram critérios para hiper­mobilidade, enquanto a prevalência populacional estimada varia entre 10% e 20%.

Esses achados sugerem que a hipermobilidade pode constituir um fenótipo corporal associado a traços neurodivergentes, hipótese reforçada por estudos recentes que relacionam características variantes do tecido conjuntivo a padrões cognitivos e comportamentais específicos.

Mecanismos Biológicos e Neurofisiológicos

Propriocepção e integração sensorial

Indivíduos com hiper­mobilidade frequentemente apresentam propriocepção reduzida, o que pode levar a dificuldades na percepção corporal e na coordenação motora.

Essa alteração pode resultar em maior necessidade de movimento para compensação sensorial, contribuindo para comportamentos semelhantes à hiperatividade observada no TDAH.

Disfunção autonômica

A disautonomia é amplamente documentada em hEDS, incluindo manifestações como taquicardia, intolerância ortostática, fadiga e dificuldade de concentração.

Esses sintomas podem mimetizar ou intensificar quadros de desatenção e variabilidade cognitiva, frequentemente presentes no TDAH.

Tecido conjuntivo e neurodesenvolvimento

Pesquisas recentes sugerem que o tecido conjuntivo desempenha papel mais amplo no desenvolvimento neurológico do que se imaginava.

Alterações na matriz extracelular podem influenciar a migração neuronal, a plasticidade sináptica e a integridade das vias autonômicas.

Estudos publicados em Nature (2026) demonstram que indivíduos com características variantes do tecido conjuntivo apresentam maior prevalência de traços neurodivergentes, incluindo TDAH e ansiedade.

Dor crônica e impacto cognitivo

A dor crônica, comum em hEDS, está associada a prejuízos em funções executivas, memória de trabalho e atenção sustentada.

Assim, sintomas cognitivos frequentemente atribuídos ao TDAH podem, em parte, refletir efeitos secundários da dor persistente.

Comorbidades Neuropsiquiátricas Associadas

Além do TDAH, indivíduos com SED/hEDS apresentam maior prevalência de:

  • Transtornos de ansiedade;
  • Depressão;
  • Transtorno do espectro autista;
  • Distúrbios do sono;
  • Síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS).

A coexistência dessas condições sugere que a hipermobilidade pode ser parte de um fenótipo sistêmico que envolve tanto o tecido conjuntivo quanto o neurodesenvolvimento.

Implicações Clínicas e Diagnósticas

Avaliação integrada

Profissionais de saúde devem considerar a possibilidade de hiper­mobilidade em pacientes com TDAH, especialmente quando há queixas musculoesqueléticas, fadiga, instabilidade articular ou sintomas autonômicos.

Abordagem multidisciplinar

O manejo ideal envolve colaboração entre:

  • Psicoterapia
  • Reumatologista
  • Fisioterapeuta
  • Psiquiatra
  • Neurologista
  • Terapeutas ocupacional
  • Nutricionista

Intervenções personalizadas

Estratégias terapêuticas devem contemplar tanto aspectos neurocognitivos quanto sintomas físicos associados à hipermobilidade, incluindo programas de fortalecimento muscular, manejo da dor e intervenções psicossociais.

Conclusão

As evidências atuais apontam para uma associação consistente entre a Síndrome de Ehlers-Danlos, especialmente o subtipo hipermóvel, e o TDAH.

Estudos epidemiológicos, clínicos e neurobiológicos sustentam a hipótese de mecanismos fisiopatológicos compartilhados envolvendo propriocepção, disfunção autonômica e alterações do tecido conjuntivo.

A compreensão dessa relação é fundamental para aprimorar o diagnóstico e o manejo clínico, promovendo abordagens integradas e mais eficazes.

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Referências

CEDERLÖF, M. et al. Psychiatric disorders in individuals with Ehlers-Danlos syndrome and hypermobility syndrome: a nationwide study. Journal of Psychosomatic Research, v. 170, p. 111–118, 2026.

FRONTIERS IN PSYCHIATRY. Joint Hypermobility and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Adults: A Cross-Sectional Study. Frontiers in Psychiatry, 2025.

NATURE. Beyond bendy joints: number of variant connective tissue features predicts neurodivergent characteristics in hypermobile individuals with anxiety. Nature Neuroscience, 2026.

SCIENCEINSIGHTS. Is Being Double Jointed Linked to ADHD? ScienceInsights, 2026.

NEUROFX. ADHD and Hypermobility / EDS: What the Emerging Evidence Suggests. NeuroFX Clinical Review, 2025.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

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