O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, impulsividade e dificuldades no funcionamento executivo.
Este artigo apresenta uma revisão abrangente sobre os marcadores neurobiológicos, diferenças de gênero, comorbidades associadas e classificações diagnósticas segundo o DSM‑5‑TR e a CID‑11. Discute-se a relevância do protocolo brasileiro de diagnóstico, que integra avaliação clínica, escalas padronizadas e avaliação neuropsicológica.
Dois casos clínicos fictícios ilustram diferenças de apresentação entre homens e mulheres. Por fim, são analisados os riscos do não diagnóstico e não tratamento, reforçando a importância de intervenções precoces e contínuas.
Introdução
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é amplamente reconhecido como um transtorno do neurodesenvolvimento que persiste ao longo da vida.
Embora historicamente associado à infância, evidências contemporâneas demonstram que uma parcela significativa dos indivíduos mantém sintomas na vida adulta, com impacto funcional relevante.
A heterogeneidade clínica, as diferenças de gênero e a alta prevalência de comorbidades tornam o diagnóstico em adultos um desafio clínico.
Este artigo busca integrar achados neurobiológicos, classificações diagnósticas, manifestações comportamentais e protocolos de avaliação, oferecendo uma visão robusta e atualizada do TDAH em adultos.
Classificação Diagnóstica do TDAH: DSM‑5‑TR e CID‑11
- DSM‑5‑TR
O DSM‑5‑TR classifica o TDAH em três apresentações clínicas:
- Predominantemente Desatenta
- Predominantemente Hiperativa/Impulsiva
- Apresentação Combinada
Em adultos, a apresentação desatenta é mais prevalente, especialmente em mulheres, enquanto homens tendem a apresentar quadros combinados ou hiperativos/impulsivos.
- CID‑11
A CID‑11 classifica o TDAH como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, com início na infância e impacto funcional significativo.
Segundo a CID‑11, o TDAH está classificado no código 6A05 e possui três classificadores oficiais (apresentações clínicas), além de especificadores de curso e gravidade.
Classificadores do TDAH na CID‑11 (Código 6A05)
6A05.0 — Apresentação Predominantemente Desatenta
- Predomínio de sintomas de desatenção.
- Em adultos: falhas de atenção sustentada, memória de trabalho, organização e planejamento.
- Pouca ou nenhuma hiperatividade/impulsividade significativa.
6A05.1 — Apresentação Predominantemente Hiperativa‑Impulsiva
- Predomínio de sintomas de hiperatividade e impulsividade.
- Em adultos: inquietação interna, dificuldade de esperar, decisões impulsivas.
6A05.2 — Apresentação Combinada
- Cinco ou mais sintomas em ambas as dimensões: desatenção e hiperatividade‑impulsividade.
- É a apresentação mais comum em amostras clínicas.
Especificadores adicionais usados na CID‑11 (herdados do DSM‑5‑TR)
Embora a CID‑11 foque nos três classificadores acima, na prática clínica são usados também:
- Gravidade: leve, moderada ou grave (baseada no impacto funcional).
- Curso: remissão parcial (sintomas persistem, mas abaixo do limiar diagnóstico).
Critérios gerais do diagnóstico (CID‑11 – 6A05)
Para contextualizar os classificadores, a CID‑11 define que o TDAH envolve:
- Padrão persistente (≥6 meses) de desatenção e/ou hiperatividade‑impulsividade.
- Início dos sintomas antes dos 12 anos.
- Prejuízo funcional significativo em múltiplos contextos.
Marcadores Neurobiológicos e Funcionamento Executivo
Estudos de neuroimagem demonstram alterações consistentes em circuitos fronto‑estriatais, incluindo:
- Córtex pré-frontal dorsolateral,
- Córtex orbitofrontal,
- Corpo estriado,
- Sistema dopaminérgico mesocortical.
Essas regiões estão envolvidas em autorregulação, planejamento, tomada de decisão e controle inibitório. Alterações na conectividade entre a rede de modo padrão e rede de controle executivo, sugerem desequilíbrio entre divagação mental e foco atencional. No funcionamento executivo, adultos com TDAH apresentam déficits em:
- Memória de trabalho,
- Planejamento,
- Flexibilidade cognitiva,
- Monitoramento de erros,
- Controle inibitório.
Esses déficits impactam diretamente o desempenho profissional, acadêmico e relacional.
Diferenças de Gênero
Homens adultos com TDAH tendem a apresentar sintomas externalizantes, como impulsividade, inquietação motora e comportamentos de risco. Mulheres, por outro lado, apresentam sintomas internalizantes, como desatenção, desorganização, esquecimento e sobrecarga emocional.
Essa diferença contribui para o subdiagnóstico feminino, pois seus sintomas são frequentemente confundidos com ansiedade, depressão ou traços de personalidade.
Mulheres apresentam maior prevalência de comorbidades como:
- Ansiedade generalizada,
- Depressão maior,
- Transtorno disfórico pré-menstrual,
- Transtornos alimentares.
Homens apresentam maior associação com:
- Abuso de substâncias,
- Impulsividade,
- Ansiedade,
- Comportamentos antissociais.
Comorbidades Associadas ao TDAH
As comorbidades mais frequentes incluem:
- Transtornos de ansiedade,
- Depressão maior,
- Transtorno bipolar,
- Abuso de substâncias,
- Transtornos do sono,
- Transtorno de personalidade borderline,
- Transtornos alimentares,
- Disfunções executivas severas.
A presença de comorbidades dificulta o diagnóstico, pois muitos sintomas se sobrepõem ou mascaram o quadro primário.
Protocolo Brasileiro de Diagnóstico do TDAH
O protocolo brasileiro baseado em diretrizes da Associação Brasileira do Déficit de Atenção – ABDA, do Conselho Federal de Psicologia – CFP e da literatura internacional enfatiza:
- Avaliação clínica detalhada
- História de desenvolvimento e entrevista estruturada
- Escalas padronizadas validadas no Brasil
- Avaliação neuropsicológica completa
- Investigação de comorbidades
- Exclusão de causas secundárias
- Avaliação com psiquiatra e ou neurologista
- Emissão do laudo final do diagnóstico de TDAH
- Tratamento do TDAH
A avaliação neuropsicológica é essencial para mapear déficits específicos e diferenciar TDAH de ansiedade, depressão, burnout ou sobrecarga cognitiva.
Após essa etapa, intervenções como Terapia Cognitivo‑Comportamental (TCC) ou Psicanálise Contemporânea tornam-se mais eficazes.
Casos Clínicos Fictícios
Caso Clínico 1 – Homem
João, 34 anos, professor, relata dificuldades persistentes em manter foco, impulsividade em decisões profissionais e conflitos frequentes no trabalho.
Apresenta histórico de hiperatividade na infância e, na vida adulta, manifesta inquietação interna, procrastinação e dificuldade em organizar projetos complexos.
A avaliação neuropsicológica revela déficits em memória de trabalho e controle inibitório. Comorbidades presentes: abuso moderado de álcool, ansiedade social e insônia. O diagnóstico tardio contribuiu para instabilidade profissional e desgaste emocional.
Caso Clínico 2 – Mulher
Margarida, 29 anos, assistente social, relata desorganização crônica, esquecimento frequente, dificuldade em cumprir prazos e sensação constante de inadequação. Na infância, era considerada “distraída” e “no mundo da lua”.
Na vida adulta, apresenta sobrecarga emocional, ansiedade generalizada e episódios depressivos leves.
A avaliação neuropsicológica indica déficits em planejamento, monitoramento de erros e memória de trabalho. Margarida apresenta maior vulnerabilidade emocional e comorbidades como ansiedade e depressão. O diagnóstico tardio contribuiu para sofrimento subjetivo intenso e queda de autoestima.
Discussão
Os casos clínicos ilustram como o TDAH se manifesta de forma distinta entre homens e mulheres, reforçando a importância de uma abordagem diagnóstica sensível às diferenças de gênero.
A literatura demonstra que o TDAH em adultos é sustentado por bases neurobiológicas robustas, e não por falhas motivacionais.
A avaliação neuropsicológica é fundamental para diferenciar o TDAH de outras condições que o mimetizam, como ansiedade, depressão ou burnout digital.
A presença de comorbidades amplia o sofrimento psíquico e funcional, exigindo intervenções integradas.
A TCC oferece estratégias de organização, manejo da impulsividade e reestruturação cognitiva, enquanto a Psicanálise Contemporânea permite explorar dinâmicas emocionais e padrões subjetivos que influenciam o funcionamento diário.
A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.
Se você ou alguém que conhece precisa de suporte, a Psicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida está disponível para atendimentos de avaliação neuropsicológica online para Autismo e TDAH em homens e mulheres e psicoterapia online. O primeiro passo para a saúde emocional é buscar ajuda especializada.
A psicanalista e terapeuta cognitiva comportamental Psicóloga Marina Almeida realiza atendimentos online para todo o Brasil e exterior, com foco em escuta clínica de adultos neurodiversos e típicos.
Entre em contato por mensagem no WhatsApp 55(13) 991773793.
Considerações Finais
O TDAH em adultos é um transtorno complexo, heterogêneo e frequentemente subdiagnosticado. As diferenças de gênero, os marcadores neurobiológicos e a alta prevalência de comorbidades reforçam a necessidade de protocolos diagnósticos rigorosos.
A avaliação neuropsicológica desempenha papel central na identificação de déficits específicos e na orientação de intervenções terapêuticas eficazes.
O não diagnóstico e o não tratamento acarretam riscos significativos, incluindo agravamento de comorbidades, prejuízos funcionais, sofrimento emocional crônico e comprometimento da qualidade de vida.
Assim, o reconhecimento precoce, a avaliação adequada e o tratamento contínuo são fundamentais para promover saúde mental, autonomia e bem-estar ao longo da vida adulta.
Referências
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM‑5‑TR). APA, 2022.
Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). Diretrizes para Avaliação e Tratamento do TDAH no Brasil. ABDA, 2021.
Barkley, R. A. Attention‑Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. Guilford Press, 2018.
Decety, J.; Jackson, P. L. The functional architecture of human empathy. Behavioral and Cognitive Neuroscience Reviews, 2004.
Kaplan, S.; Berman, M. Attention restoration theory: Empirical work and theoretical developments. Journal of Environmental Psychology, 2010.
Maslach, C.; Leiter, M. P. Burnout: A Brief History and How to Prevent It. Harvard University Press, 2016.
Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças – CID‑11. OMS, 2019.
Turkle, S. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. Basic Books, 2017.
Twenge, J. M. iGen: Why Today’s Super‑Connected Kids Are Growing Up Less Happy and Completely Unprepared for Adulthood. Atria Books, 2019.
Willcutt, E. G. The prevalence of DSM‑IV attention‑deficit/hyperactivity disorder: A meta‑analytic review. Neurotherapeutics, 2012.
Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029
Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.
Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental
Entre em contato comigo somente por mensagem no WhatsApp (+55) 13 991773793 que minha secretária enviará as informações que precisar sobre Avaliação Neuropsicológica on-line, Psicoterapia on-line, Mentoria, Palestras e Consultoria.
Instagram:
@institutoinclusaobrasil
@psicologamarinaalmeida
@autismoemadultos_br

