AS RELAÇÕES HUMANAS NUMA ERA PLANETÁRIA

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Pensar as relações humanas numa era planetária e o conhecimento no processo educacional implica considerar um mundo que permitirá articular, religar e até globalizar, tornando o conhecimento pertinente e contextualizado. E isso é um grande desafio, em uma época de saberes isolados, que não se reduzem à especializações, mas a hiper-especializações, por não existir comunicação entre si. Isso faz com que não exista uma solidariedade entre os conhecimentos, sendo tratados de forma isolada, desconsiderando que “[…] nessa época de mundialização, os grandes problemas são transversais, multidimensionais e planetários.” (MORIN, 2007).

Vemos isso de forma prática, em todos os setores de nossas vidas. Um bom exemplo até irônico é irmos ao médico quando temos uma dor em um dos braços, provavelmente não poderemos ser atendidos por um médico clínico geral, mas um médico especialista, o ortopedista, mas não basta ser ortopedista tem que ser especialista no braço direito ou no braço esquerdo, e também tem que ser especialista da mão direita, do dedo direito etc… E assim somos fragmentados em pequenas partes do nosso corpo, para termos uma chance de sermos compreendidos em nossa dor. O médico de família que sabia da nossa história praticamente acabou. Temos hoje o mundo dos especialistas. Para nosso bem ou para nosso mal? Não sabemos?  Depende? Mas, sabemos que a perspectiva humana de sermos vistos, compreendidos e ouvidos em nossa alteridade e inteireza está cada vez mais esvaziado de afeto e significado.

As questões das relações humanas numa era planetária estão sendo cada vez mais atomizadas, perdendo-se o cerne central da dimensão humana e das referencias do valor a vida e do mundo em que vivemos. Discursos holísticos e ecológicos temos aos montes todos os dias, mas na pratica pouco se efetiva.

Sabemos que hoje, o que acontece na Ásia, ou na Austrália tem proporções mundiais, que a informação está em rede, interligada e é rápida. Não é possível mais pensarmos apenas a partir de nosso quintal.

Urge a necessidade de sermos seres humanos mais responsáveis pela nossa vida planetária, pela educação que oferecemos aos nossos filhos, pela cultura de valores que estamos criando e as futuras consequências disto num patamar planetário. As especialidades deveriam ser transversais e não segmentadas, porque a fragmentação leva a perda do todo.

Estas questões foram levantadas à luz do pensamento de Edgar Morin, teórico francês que se dedicou com afinco as ciências sociais, graduando-se em Economia, Política, História, Geografia e Direito. Dedicou-se muito a Economia Política, pois tinha como projeto pessoal, a humanização do processo econômico. A partir de 1998, dedicou-se com afinco a educação na França que a assume como responsabilidade cidadã e planetária.

A era planetária desenvolveu-se através da colonização, na escravidão, da ocidentalização e, também da multiplicação das relações e interações entre as 3 diferentes partes do globo. Tornando-se, portanto necessário conhecer o destino do nosso planeta nas interações e retroações do conhecimento que estão nos processos econômicos, políticos, sociais, étnicos, religiosos, mitológicos que define o nosso destino. Passou a ser urgente saber quem somos, o que nos alcança, ameaça, influencia e até o que a gente acredite que tem condições de nos salvar.

Tem-se cada vez mais que entender os problemas locais e globais/globais e locais, compreendendo a sua complexidade, é preciso, portanto, que tenhamos um sistema educacional que não divida nem fragmente os conhecimentos, pois tudo esta ligado, não só na realidade humana, como também na realidade planetária.

Morin (2008) reforça a necessidade de um pensamento que nos permita ligar as coisas, que estão separadas, em meio a um sistema educativo que ainda insiste e privilegia a separação a ligação. A organização do conhecimento por disciplina poderia ser útil se não fossem fechadas em si mesmas.

Temos hoje estudantes que são do século XXI, professores formados na cultura do século XIX e uma escola formatada do século XVIII, por consequência temos um choque de interesses, de práticas educacionais ultrapassadas e de desejos de conhecimento insatisfeitos e por muitas vezes incompreendidos, porque tudo está fragmentado e desconectato.

Não seríamos seres humanos, indivíduos humanos, se não tivéssemos crescido num ambiente cultural onde aprendemos a falar, e não seríamos seres humanos vivos se não nos alimentássemos de elementos e alimentos provenientes do meio natural.  É indispensável que exista um modo de conhecimento que permita compreender como as organizações, os sistemas, produzem o que há de fundamental no nosso mundo, pois não podemos compreender o ser humano apenas pelo o que constituem, pois se observarmos uma sociedade, verificaremos que há interações entre os indivíduos, que formam um conjunto e, portanto a sociedade, que é possuidora de uma língua e de uma cultura.

Pensando a relação indivíduo e sociedade, surge um elemento indispensável que é a vida. A vida que se apresenta como um sistema de reprodução, tendo como produto final os indivíduos, ou seja, somos produtos da reprodução dos nossos pais. Mas a continuidade desse processo só é possível se nós tornarmos produtores e reprodutores de nossos filhos. Somos, portanto, produtos e produtores no processo da vida. Da mesma maneira. Somos produtores da sociedade porque sem indivíduos humanos não existiria a sociedade.

Neste momento entender o que vem a ser pensamento complexo, nos ajudará a compreender as questões humanas. Pensar em complexidade, nos remete a associar ao que é complicado, o que é natural pela própria estrutura da palavra, que nos causa dúvida.

O pensamento complexo sabe que existem dois tipos de ignorância: a daqueles que não sabe e quer aprender e a ignorância (mais perigosa) daquele que acredita que o conhecimento é um processo linear, cumulativo, que avança trazendo a luz ali onde antes havia escuridão, ignorando que toda luz também produz sombra como eleito.

Sabemos que todos os progressos alcançados podem ser destruídos pelos nossos oponentes mais insensíveis, ou seja, nós mesmos, vez que na contemporaneidade a humanidade é a maior inimiga da humanidade. Do mesmo modo, penso que devemos considerar a história humana de maneira complexa. Ora, entre as maneiras não complexas de considerar a história humana, a primeira foi a de que esta era uma sucessão de batalhas, de golpes de Estado, de mudanças de reino, de acontecimentos importantes, de acidentes, de guerras. Uma segunda maneira consistiu em julgar que os acidentes, as guerras, as mudanças de reino, eram acontecimentos superficiais enquanto, na realidade, existiria um movimento ascendente, o do progresso; as leis da história estariam escritas no decurso da humanidade e, se surgissem acidentes, seriam provisórios.

A cultura geral possibilitava a busca da contextualização da informação ou ideia, a cultura científica e técnica, movida pela sua característica disciplinar e especializada, separam e compartimentam os saberes, tornando cada vez mais difícil a contextualização desse conhecimento.

A reforma do pensamento é que permitiria o pleno emprego da inteligência para responder a esses desafios e permitiria a ligação de duas culturas dissociadas. Trata-se de uma reforma não programática, mas paradigmática, concernente a nossa aptidão para organizar o conhecimento.

Edgar Morin ressalta que as ideias de reformas projetadas até este momento giraram em torno, do que ele chama de buraco negro, onde se encontra a mais profunda carência das nossas mentes, da sociedade e do nosso tempo, como sendo resultado do nosso ensino.

A superação desse buraco negro nos remete a reforma do ensino que por sua vez levará a reforma do pensamento e vice e versa. Pois pensar a reforma do pensamento é também pensar na reforma do paradigma dominante (de separação e redução), que seguimos sem nenhuma contestação.

E é na perspectiva do paradigma da complexidade que Morin (2010) faz a relação de interdependência do passado, do presente e do futuro da humanidade, reforçando a necessidade plena da interação do conhecimento e das experiências humanas, ou seja, de um conhecimento pertinente.

O passado é construído pelo presente, que por sua vez retira desse passado o que é preciso para desenvolver o presente. Nesse caminho, o futuro nasce desse presente, numa lógica que nos remete a entender que a dificuldade que temos para pensar o futuro, se dá na dificuldade de pensar o presente.

Vivemos uma condição de submissão, que é justamente o contrário da liberdade, do protagonismo, sendo um problema reincidente na nossa história.

Morin reforça que não basta mudar o sistema econômico, acabando com o poder político dentre outros, para termos uma nova sociedade. E é justamente ao que se encontra o problema, fazer uma nova sociedade, tendo como desafio levar a humanidade a ter consciência do futuro.

INDICAÇÃO DE UM FILME SOBRE A TEMÁTICA

O Núcleo – Missão ao centro da Terra, filme de 2003, gênero ficção, aventura e ação, direção Jon Amiel. Repentinamente a Terra parou de realizar seu movimento de rotação, devido a uma força ainda desconhecida que está agindo sobre o planeta. A paralisação traz consequências desastrosas para o planeta, já que proporciona a deterioração do magnetismo da Terra e, consequentemente, também de sua atmosfera. Para tentar descobrir o que está havendo e resolver a crise o geofísico Josh Keyes (Aaron Eckhart) escala uma equipe com alguns dos mais brilhantes cientistas do planeta, que tem por missão ir até o núcleo da Terra para reativar a rotação do planeta.

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