ENVELHECIMENTO EM MULHERES: SAÚDE MENTAL, ETARISMO, NEURODIVERSIDADE E INTERSECCIONALIDADE

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O envelhecimento feminino é atravessado por múltiplas camadas de desigualdade, expectativas sociais, pressões estéticas, desafios econômicos e transformações corporais e emocionais. Embora todas as pessoas envelheçam, as mulheres vivenciam esse processo de forma distinta resultado de trajetórias marcadas por desigualdades de gênero, sobrecarga de cuidados, violência estrutural, menor acesso a recursos econômicos e maior exposição ao etarismo.

Além disso, cresce o reconhecimento de que muitas mulheres idosas são neurodivergentes (autistas, TDAH, disléxicas, entre outras), mas passaram a vida sem diagnóstico ou apoio adequado.

A interseccionalidade considerando raça, classe, território, sexualidade, deficiência e identidade de gênero é essencial para compreender essas velhices diversas.

Este artigo aprofunda cada dimensão desse fenômeno.

Envelhecimento Feminino: Um Processo Marcado por Desigualdades Estruturais

O envelhecimento das mulheres não pode ser entendido apenas como fenômeno biológico. Ele é socialmente construído e profundamente influenciado por:

  • Desigualdades de gênero acumuladas ao longo da vida
  • Sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado
  • Menor acesso a renda, previdência e oportunidades profissionais
  • Violência física, emocional e patrimonial
  • Padrões estéticos que valorizam juventude e sexualização

Transformações físicas e emocionais

  • Menopausa e climatério: alterações hormonais que impactam humor, sono, libido, memória e energia.
  • Mudanças corporais: aumento de peso, perda de massa muscular, alterações na pele e nos cabelos, que podem afetar autoestima.
  • Perdas afetivas: viuvez, afastamento dos filhos, morte de amigos.
  • Reconfiguração de papéis: muitas mulheres deixam de ser cuidadoras centrais e precisam reconstruir identidade.

Exemplo

Uma mulher de 64 anos, que dedicou décadas ao cuidado dos filhos e dos pais idosos, pode sentir vazio e desorientação ao perder esse papel central. A aposentadoria, somada à saída dos filhos de casa, pode desencadear ansiedade, tristeza e sensação de inutilidade.

Saúde Mental no Envelhecimento Feminino

A saúde mental das mulheres idosas é influenciada por fatores biológicos, sociais e culturais.

Principais desafios

  • Depressão: mais prevalente em mulheres, especialmente após perdas afetivas e mudanças hormonais.
  • Ansiedade: relacionada à insegurança financeira, medo de adoecer e preocupação com familiares.
  • Solidão: mulheres vivem mais e, portanto, têm maior probabilidade de viver sozinhas.
  • Sobrecarga emocional: muitas continuam cuidando de netos, parceiros doentes ou familiares.
  • Histórico de violência: traumas acumulados ao longo da vida podem ressurgir na velhice.

Exemplo

Uma mulher de 70 anos que vive sozinha pode enfrentar noites de insônia, medo de quedas, preocupação com contas e sensação de abandono, especialmente se não possui rede de apoio.

A Discriminação que Molda o Envelhecimento Feminino

Etarismo, idadismo e ageísmo: esses termos se referem a estereótipos, preconceitos e discriminações direcionados às pessoas apenas com base na idade delas, desconsiderando que em todas as fases da vida há uma mescla de dores e prazeres.

Discriminação etária e geracional é qualquer tipo de preconceito baseado na idade cronológica e pode ser manifestada de diversas formas em situações do cotidiano, como na desvalorização da experiência dos mais velhos e na falta de oportunidades para os mais jovens.

O etarismo e o idadismo englobam atitudes discriminatórias contra pessoas ou grupos de qualquer idade, enquanto o ageísmo afeta especialmente indivíduos de idade mais avançada.

No mercado de trabalho, por exemplo, o ageísmo pode levar à dificuldade de encontrar emprego ou de conseguir promoções e mudanças de carreira, o que afeta a qualidade de vida das pessoas.

A American Psychological Association afirma que o preconceito de idade é uma questão séria, que deve ser tratada da mesma forma que a discriminação baseada em gênero, etnia ou orientação sexual, por exemplo, visto que pode acarretar sentimentos de exclusão, baixa autoestima e isolamento, afetando diretamente a saúde mental.

Para ajudar a combater esse preconceito, devemos aumentar a consciência pública sobre os problemas que a discriminação de idade cria, sensibilizando a todos de que o envelhecimento é um processo natural que não impede necessariamente o indivíduo de realizar atividades físicas ou cognitivas de maneira satisfatória.

Precisamos rever conceitos desatualizados que colocam pessoas mais velhas na posição de fardos sociais e pessoas novas como inexperientes, e disponibilizar à sociedade um debate mais assertivo sobre o assunto.

O etarismo é a discriminação baseada na idade. Ele afeta todas as pessoas idosas, mas incide com maior força sobre mulheres. Os preconceitos incluem recusar emprego por causa da idade, achar que idosos não podem aprender coisas novas, ou tratá-los com infantilização.

Como o etarismo afeta mulheres

  • Pressão estética: a sociedade valoriza juventude feminina, tornando rugas, cabelos brancos e flacidez motivos de vergonha.
  • Dessexualização: mulheres idosas são vistas como “assexuadas”, invisibilizando seus desejos e afetos.
  • Desqualificação profissional: mulheres maduras enfrentam mais barreiras para permanecer ou retornar ao mercado de trabalho.
  • Invisibilidade social: suas opiniões são menos valorizadas em espaços públicos e familiares.

Exemplo

Uma profissional de 58 anos pode ser preterida em processos seletivos por ser considerada “desatualizada”, mesmo tendo experiência superior aos candidatos mais jovens.

Neurodiversidade e Envelhecimento Feminino

Muitas mulheres idosas são neurodivergentes, mas passaram a vida sem diagnóstico devido ao viés de gênero nas pesquisas e nos critérios clínicos.

Autismo em mulheres idosas

  • Camuflagem social: mulheres autistas tendem a mascarar sinais, o que gera exaustão emocional ao longo da vida.
  • Burnout Autista: comum após décadas de esforço para se adaptar a ambientes neurotípicos.
  • Dificuldades sensoriais: podem se intensificar com o envelhecimento.
  • Isolamento: muitas têm redes sociais pequenas e dependem de rotinas estruturadas.

TDAH em mulheres idosas

  • Desorganização: pode se intensificar com declínio natural da memória.
  • Ansiedade: medo de esquecer compromissos, medicações ou contas.
  • Baixa autoestima: resultado de críticas acumuladas ao longo da vida.
  • Risco financeiro: impulsividade e dificuldade de planejamento podem gerar endividamento.

Exemplo

Uma mulher de 65 anos com TDAH pode esquecer horários de medicação, perder documentos importantes e enfrentar dificuldades para gerenciar aposentadoria, aumentando ansiedade e vulnerabilidade.

Interseccionalidade: Raça, Classe, Território, Sexualidade e Deficiência

A interseccionalidade é essencial para compreender o envelhecimento feminino.

Mulheres negras idosas

  • Menor acesso à saúde
  • Maior exposição à violência
  • Aposentadorias menores
  • Maior carga de trabalho ao longo da vida
  • Racismo institucional

Mulheres periféricas ou vulneráveis

  • Moradia precária
  • Insegurança alimentar
  • Falta de acesso a lazer e cultura
  • Maior dependência de políticas públicas

Mulheres LGBTQIA+ idosas

  • Isolamento
  • Discriminação
  • Rompimento de vínculos familiares
  • Medo de buscar atendimento

Mulheres com deficiência

  • Barreiras de acessibilidade
  • Dependência de terceiros
  • Maior risco de violência

Trabalho e Envelhecimento Feminino

O trabalho é uma dimensão central da vida das mulheres, mas o envelhecimento traz desafios específicos.

Desafios

  • Desigualdade salarial acumulada
  • Histórico de informalidade
  • Dificuldade de reinserção no mercado
  • Etarismo corporativo
  • Sobrecarga de cuidados que limita oportunidades profissionais

Exemplo

Uma mulher de 55 anos que sempre trabalhou como cuidadora pode enfrentar dores crônicas, exaustão física e emocional, mas não consegue se aposentar devido à informalidade.

Lazer, Cotidiano e Qualidade de Vida

O lazer é fundamental para saúde mental, mas muitas mulheres idosas têm pouco acesso a ele.

Barreiras

  • Falta de tempo devido a cuidados familiares
  • Falta de recursos financeiros
  • Falta de espaços seguros e acessíveis
  • Vergonha ou medo de participar de atividades públicas
  • Ausência de políticas culturais voltadas para mulheres idosas

Exemplo

Uma mulher de 72 anos que cuida dos netos diariamente pode não ter tempo para atividades físicas, lazer ou autocuidado, aumentando risco de depressão e ansiedade.

Outros Fatores Atuais que Impactam o Envelhecimento Feminino

Tecnologia e exclusão digital

  • Dificuldade de acesso a serviços digitais
  • Dependência de familiares para operações bancárias
  • Risco de golpes virtuais

Crises ambientais

  • Ondas de calor
  • Enchentes
  • Falta de água
  • Maior vulnerabilidade em moradias precárias

Violência contra mulheres idosas

  • Violência patrimonial
  • Negligência
  • Violência psicológica
  • Violência física
  • Assédio no trabalho

Caminhos para uma Longevidade Feminina Saudável

Cuidados em saúde mental

  • Psicoterapia adaptada
  • Grupos de convivência
  • Atividades culturais
  • Práticas de autocuidado
  • Apoio comunitário

Políticas públicas

  • Combate ao etarismo
  • Programas de renda e previdência
  • Acesso à saúde mental
  • Políticas de cuidado compartilhado
  • Inclusão digital

Fortalecimento de redes de apoio

  • Grupos de mulheres idosas
  • Redes intergeracionais
  • Projetos comunitários
  • Espaços de escuta e acolhimento

Considerações Finais

O envelhecimento feminino é complexo, diverso e profundamente marcado por desigualdades estruturais.

Para promover uma velhice digna, é necessário reconhecer:

  • A interseccionalidade das experiências
  • A importância da saúde mental
  • Os impactos do etarismo
  • A presença da neurodiversidade
  • As desigualdades no trabalho
  • A necessidade de lazer e autonomia
  • A urgência de políticas públicas inclusivas

Mulheres idosas são protagonistas de suas histórias e merecem envelhecer com dignidade, segurança, autonomia e reconhecimento.

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Referências Bibliográficas

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Minayo, M. C. S. Violência contra Idosos: O Desafio de Prevenir. Fiocruz, 2022.

Happé, F. & Charlton, R. A. Autism and Aging: A Growing Field of Research. Current Opinion in Psychiatry, 2022.

Goodman, D. W. ADHD Across the Lifespan. CNS Spectrums, 2024.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

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