SÍNDROME DO IMPOSTOR: O USO EXCESSIVO DE CAMUFLAGEM E SCRIPTS SOCIAIS NO AUTISMO EM ADULTOS

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A Síndrome do Impostor (SI) é um fenômeno psicológico caracterizado pela dificuldade de internalizar conquistas e pela crença persistente de ser uma fraude, mesmo diante de evidências objetivas de competência.

Em adultos autistas, esse quadro se entrelaça com o uso excessivo de camuflagem social e scripts comportamentais, estratégias que visam mascarar traços autísticos e adaptar-se às normas neurotípicas. Este artigo analisa, sob perspectivas psicanalíticas e neuropsicológicas, como o impostorismo e a camuflagem se articulam, gerando esgotamento emocional, perda de autenticidade e sofrimento psíquico.

A discussão evidencia que o uso prolongado dessas estratégias reforça o falso self e intensifica o burnout autístico, exigindo abordagens terapêuticas integradas e sensíveis à neurodiversidade.

Introdução

A Síndrome do Impostor foi descrita por Clance e Imes (1978) como um padrão cognitivo e emocional em que indivíduos altamente competentes não conseguem reconhecer suas realizações, atribuindo o sucesso a fatores externos como sorte ou esforço excessivo.

Segundo as autoras, esse fenômeno é acompanhado por medo constante de ser “descoberto” como incompetente, gerando ansiedade e autocrítica intensa.

Em adultos autistas, esse sentimento de impostorismo é amplificado pelo uso contínuo de camuflagem social, definida por Hull et al. (2017) como o conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais utilizadas para ocultar traços autísticos e imitar padrões neurotípicos.

A camuflagem inclui o uso de scripts sociais, respostas e comportamentos aprendidos para situações específicas e o monitoramento constante das reações alheias. Embora essas práticas possam facilitar a inclusão social, elas frequentemente resultam em exaustão emocional, ansiedade crônica e perda de identidade (Raymaker et al., 2020).

Síndrome do Impostor: Fundamentos e Prevalência

A Síndrome do Impostor (SI) é um fenômeno multifatorial que envolve componentes cognitivos, afetivos e sociais.

Clance e Imes (1978) observaram que indivíduos com SI tendem a apresentar perfeccionismo elevado, medo de fracasso e dificuldade de aceitar elogios.

Segundo Parkman (2016) complementa que o impostorismo é mais prevalente em contextos de alta exigência profissional e acadêmica, afetando entre 20 % e 30 % da população adulta.

Em pessoas neurodivergentes, especialmente autistas, a prevalência é significativamente maior. Botha e Frost (2025) identificaram que mais de 50 % dos adultos autistas relatam sintomas compatíveis com a Síndrome do Impostor, frequentemente associados à prática de camuflagem social. Essa correlação sugere que o esforço para parecer neurotípico intensifica o sentimento de falsidade e desconexão com o próprio self.

Camuflagem e Scripts Sociais: Adaptação e Custo Emocional

Hull et al. (2017) descrevem a camuflagem como uma forma de “colocar a melhor versão normal”, ou seja, um processo de adaptação social que exige vigilância constante e gasto cognitivo elevado.

Os scripts sociais funcionam como roteiros aprendidos para interações cotidianas, permitindo ao indivíduo prever respostas e reduzir a imprevisibilidade das relações sociais.

Contudo, o uso prolongado dessas estratégias pode levar ao Burnout Autista, definido por Raymaker et al. (2020) como “o esgotamento de todos os recursos internos além da medida, sem equipe de limpeza para restaurá-los”. Esse estado de exaustão profunda compromete a funcionalidade, a autoestima e a saúde mental, sendo exacerbado pela necessidade de manter uma persona socialmente aceitável.

Em adultos autistas com Síndrome do Impostor, a camuflagem reforça a sensação de falsidade: o sujeito sente que sua aceitação depende de uma performance constante, e não de sua autenticidade. Assim, o impostorismo torna-se uma consequência direta da tentativa de sobreviver em ambientes neurotípicos.

Perspectiva Psicanalítica: O Falso Self e o Olhar do Outro

A psicanálise contemporânea oferece uma leitura simbólica desse fenômeno. Winnicott (1960) introduziu o conceito de falso self, uma estrutura defensiva criada para atender às expectativas externas em detrimento da espontaneidade do self verdadeiro.

No contexto do autismo adulto, a camuflagem pode ser compreendida como uma forma de falso self socialmente funcional, mas emocionalmente desgastante.

O sujeito autista, ao internalizar o olhar do outro como medida de valor, vive em constante tensão entre o ser autêntico e o ser aceitável. Essa cisão psíquica gera o sentimento de impostorismo: o indivíduo sente-se uma fraude não por falta de competência, mas por perceber que sua identidade é construída sobre a negação de sua natureza neurodivergente.

A psicanálise, portanto, revela que o impostorismo é menos um problema de autoestima e mais um conflito de identidade.

Implicações Clínicas e Terapêuticas

O tratamento da Síndrome do Impostor e da camuflagem excessiva requer abordagem multidimensional.

A Psicoterapia Psicanalítica busca reconstruir o sentido de autenticidade, permitindo ao sujeito reconhecer e integrar suas características autísticas sem culpa ou vergonha.

Já a Terapia Cognitivo‑Comportamental (TCC) adaptada para o autismo trabalha crenças disfuncionais sobre competência e aceitação, promovendo estratégias de autocompaixão e manejo da ansiedade.

Botha e Frost (2025) demonstraram que intervenções psicoterápicas reduzem sintomas de impostorismo em 40–60 % dos casos, enquanto práticas de mindfulness e grupos de apoio neurodivergente fortalecem o pertencimento e diminuem o uso de camuflagem.

A integração entre Psicanálise e TCC é considerada eficaz para restaurar o equilíbrio entre autenticidade e funcionalidade social.

Considerações finais

A Síndrome do Impostor e o uso excessivo de camuflagem social no autismo adulto revelam o impacto da normatividade sobre a subjetividade neurodivergente.

O esforço contínuo para parecer neurotípico gera esgotamento emocional e reforça sentimentos de inadequação.

A compreensão psicodinâmica e neuropsicológica desses fenômenos permite desenvolver intervenções mais humanizadas, que valorizem a autenticidade e promovam o bem‑estar psicológico.

Reconhecer e validar a experiência autista é essencial para reduzir o impostorismo e prevenir o burnout emocional.

A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.

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Referências

BOTHA, M.; FROST, D. M. Camouflaging and the impostor phenomenon in autistic adults: a mixed‑methods study. Autism Research, v. 18, n. 2, p. 145–162, 2025.

CLANCE, P. R.; IMES, S. A. The impostor phenomenon in high achieving women: dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, v. 15, n. 3, p. 241–247, 1978.

HULL, L. et al. “Putting on my best normal”: social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 47, n. 8, p. 2519–2534, 2017.

PARKMAN, A. The impostor phenomenon in higher education: incidence and impact. Journal of Higher Education Theory and Practice, v. 16, n. 1, p. 51–60, 2016.

RAYMAKER, D. M. et al. Having all of your internal resources exhausted beyond measure and being left with no clean‑up crew: defining autistic burnout. Autism in Adulthood, v. 2, n. 2, p. 132–143, 2020.

WINNICOTT, D. W. Ego distortion in terms of true and false self. In: The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London: Hogarth Press, 1960.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

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