ENVELHECIMENTO, DIVERSIDADE E INTERSECCIONALIDADE DAS VELHICES

Compartilhe

O envelhecimento é um fenômeno universal, mas as velhices são múltiplas. A ideia de uma “velhice padrão” homogênea, linear e previsível não se sustenta diante das evidências sociais, econômicas e culturais contemporâneas. Cada trajetória de vida produz uma forma distinta de envelhecer, marcada por desigualdades acumuladas e por experiências singulares.

Assim, compreender a diversidade e a interseccionalidade das velhices é essencial para construir políticas, práticas e ambientes que promovam segurança financeira, autonomia, proteção e protagonismo para todas as pessoas idosas.

A Pluralidade das Velhices: Desconstruindo o Modelo Único

A noção de “velhice” como categoria homogênea foi historicamente construída a partir de um referencial eurocêntrico, masculino, branco e de classe média. Esse modelo invisibiliza outras formas de envelhecer e reforça desigualdades.

Velhices situadas

As velhices são atravessadas por:

  • Raça e etnia
  • Gênero e sexualidade
  • Classe social e ocupação
  • Território e mobilidade urbana
  • Deficiência e condições de saúde
  • Histórico de acesso a direitos

Exemplo

Compare duas trajetórias:

  • Homem branco, 62 anos, classe média, aposentado por tempo de contribuição, com acesso a plano de saúde e moradia estável.
  • Mulher negra, 62 anos, trabalhadora doméstica, com histórico de informalidade, aposentada por idade com benefício mínimo, moradora de periferia, mora de aluguel e depende de serviços públicos disponíveis.

Ambos têm a mesma idade cronológica, mas suas velhices são profundamente diferentes em termos de saúde, renda, autonomia e proteção.

Interseccionalidade: Uma Ferramenta Analítica para Compreender Desigualdades

A interseccionalidade, conceito formulado por Kimberlé Crenshaw, permite analisar como diferentes marcadores sociais se combinam e produzem vulnerabilidades específicas.

Por que a interseccionalidade importa na velhice?

Porque desigualdades não desaparecem com o tempo — elas se acumulam.

  • Mulheres vivem mais, mas com menos renda e maior carga de trabalho não remunerado.
  • Pessoas negras têm menor expectativa de vida e maior incidência de doenças crônicas.
  • Idosos LGBTQIA+ enfrentam isolamento, discriminação e menor suporte familiar.
  • Pessoas com deficiência acumulam barreiras de acessibilidade ao longo da vida.

Exemplo

Uma pessoa idosa trans pode enfrentar:

  • Dificuldades de acesso a serviços de saúde devido à transfobia.
  • Histórico de exclusão laboral que compromete a aposentadoria.
  • Rompimento de vínculos familiares, aumentando vulnerabilidade social.

Essa combinação de fatores exige políticas específicas e sensíveis às diferenças.

Segurança Financeira: Desigualdades que Atravessam a Vida Toda

A segurança financeira é um dos pilares da longevidade digna, mas é profundamente marcada por desigualdades estruturais.

Fatores que influenciam a renda na velhice

  • Informalidade laboral: mais comum entre mulheres, pessoas negras e moradores de periferias.
  • Trabalho doméstico não remunerado: impacta tempo de contribuição previdenciária.
  • Discriminação no mercado de trabalho: afeta pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e grupos racializados.
  • Acesso desigual à educação: influencia oportunidades de emprego e renda ao longo da vida.

Exemplo

Uma trabalhadora doméstica que contribuiu de forma intermitente ao INSS tende a receber benefícios menores, o que compromete sua autonomia financeira e aumenta dependência de familiares ou políticas públicas.

Autonomia: Entre Possibilidades e Barreiras Estruturais

Autonomia envolve a capacidade de tomar decisões e conduzir a própria vida. No entanto, ela é condicionada por fatores sociais, econômicos e culturais.

Dimensões da autonomia

  • Autonomia funcional: capacidade de realizar atividades diárias.
  • Autonomia decisória: poder de escolha sobre cuidados, moradia e finanças.
  • Autonomia social: participação em redes e atividades comunitárias.
  • Autonomia digital: acesso e uso de tecnologias.

Exemplo

Idosos de territórios periféricos, com menor acesso à internet, enfrentam dificuldades para:

  • Agendar consultas médicas
  • Realizar operações bancárias
  • Acessar benefícios sociais
  • Participar de atividades virtuais

Isso reduz autonomia e aumenta dependência.

Proteção: Violências, Vulnerabilidades e Direitos

A proteção na velhice envolve segurança física, emocional, jurídica e social. A interseccionalidade revela que certos grupos enfrentam riscos ampliados.

Formas de violência contra pessoas idosas

  • Violência doméstica e familiar
  • Racismo institucional em serviços de saúde
  • LGBTfobia em instituições de longa permanência
  • Negligência e abandono
  • Fraudes financeiras
  • Violência patrimonial

Exemplo

Idosos LGBTQIA+ relatam medo de buscar atendimento médico devido a experiências anteriores de discriminação, o que compromete sua saúde e segurança.

Protagonismo: Velhices que Reivindicam Voz, Espaço e Poder

O protagonismo rompe com a visão do idoso como mero receptor de cuidados. Ele passa a ser agente ativo, com voz e projetos.

Formas de protagonismo

  • Participação em conselhos de idosos
  • Movimentos de idosos negros e LGBTQIA+
  • Grupos de convivência em territórios periféricos
  • Empreendedorismo na maturidade
  • Atuação em coletivos culturais e políticos

Exemplo

Coletivos de mulheres idosas periféricas têm criado redes de apoio para discutir saúde, finanças e direitos, fortalecendo autonomia, proteção e protagonismo.

Um Modelo Inclusivo de Longevidade

A interseccionalidade permite compreender como segurança financeira, autonomia, proteção e protagonismo se articulam de forma desigual entre diferentes grupos de idosos.

  • A falta de segurança financeira reduz autonomia.
  • A discriminação compromete proteção.
  • A invisibilidade social limita protagonismo.
  • O protagonismo fortalece autonomia e proteção.

Promover velhices diversas e dignas exige políticas públicas integradas, práticas profissionais sensíveis às diferenças e uma sociedade que reconheça e valorize a pluralidade da longevidade.

Considerações Finais

Envelhecer é inevitável; envelhecer com dignidade é um direito. Reconhecer a diversidade e a interseccionalidade das velhices é fundamental para construir uma sociedade mais justa, inclusiva e preparada para a revolução da longevidade.

O desafio contemporâneo é garantir que todas as pessoas independentemente de raça, gênero, classe, território ou identidade possam viver a velhice com segurança financeira, autonomia, proteção e protagonismo.

A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.

Se você ou alguém que conhece precisa de suporte, a Psicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida está disponível para atendimentos de avaliação neuropsicológica online para Autismo e TDAH em homens e mulheres e psicoterapia online. O primeiro passo para a saúde emocional é buscar ajuda especializada.

A psicanalista e terapeuta cognitiva comportamental Psicóloga Marina Almeida realiza atendimentos online para todo o Brasil e exterior, com foco em escuta clínica de adultos neurodiversos e típicos.

Entre em contato por mensagem no WhatsApp 55(13) 991773793.

Referências Bibliográficas

Butler, J. Gender Trouble: 30th Anniversary Edition. Routledge, 2020.

Camarano, A. A. (org.). Cuidados de Longa Duração para a População Idosa. IPEA, 2022.

Crenshaw, K. “Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence Against Women of Color.” Stanford Law Review, 2021 (edição comentada).

IBGE. Projeções da População: Brasil e Unidades da Federação. IBGE, 2023.

Kalache, A. A Revolução da Longevidade. Oxford Institute of Population Ageing, 2021.

Mott, L. “Velhices LGBTQIA+: Invisibilidades e Resistências.” Cadernos Pagu, 2022.

Organização Mundial da Saúde. Decade of Healthy Ageing 2021–2030. WHO, 2020.

Ribeiro, D. Lugar de Fala. Companhia das Letras, 2019 (relevante para debates sobre interseccionalidade).

Santos, B. S. O Fim do Império Cognitivo. Autêntica, 2020 (para debates sobre diversidade epistemológica).

Veras, R. P. & Oliveira, M. “Desigualdades e Envelhecimento no Brasil.” Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 2023.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

Entre em contato comigo somente por mensagem no WhatsApp (+55) 13 991773793 que minha secretária enviará as informações que precisar sobre Avaliação Neuropsicológica on-line, Psicoterapia on-line, Mentoria, Palestras e Consultoria.

Instagram:

@institutoinclusaobrasil

@psicologamarinaalmeida

@autismoemadultos_br

Conheça os E-Books

Coleção Neurodiversidade

Coleção Escola Inclusiva

Os E-books da Coleção Neurodiversidade, abordam vários temas da Educação, elucidando as dúvidas mais frequentes de pessoas neurodiversas, professores, profissionais e pais relativas à Educação Inclusiva.

Outros posts

IMPACTO DO ESTIGMA EM CASAMENTOS NEURODIVERSOS

O estigma em torno do autismo pode impactar significativamente os casamentos neurodiversos. Atitudes sociais negativas e concepções errôneas sobre o autismo podem criar barreiras para

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *