PSICOPATOLOGIAS DOS EXCESSOS E CLÍNICA DO VAZIO: UMA ANÁLISE PSICANALÍTICA CONTEMPORÂNEA E SUAS ARTICULAÇÕES NEUROBIOLÓGICAS

Compartilhe

As psicopatologias dos excessos e da clínica do vazio constituem fenômenos clínicos crescentes na contemporaneidade, associados à hiperestimulação, à precarização dos vínculos e à fragilidade das funções simbólicas.

Este artigo descreve tais manifestações a partir da psicanálise contemporânea, articulando prevalência, fundamentos teóricos, vinhetas clínicas fictícias, aspectos neurobiológicos e diretrizes de tratamento.

A análise evidencia como o sujeito atual oscila entre comportamentos compulsivos, aditivos e hiperativos (excessos) e estados de desinvestimento, apatia e desmentida subjetiva (vazio).

A clínica exige novas formas de escuta, sustentação e construção de sentido, sem abandonar os princípios fundamentais da psicanálise.

Introdução

Nas últimas décadas, observa-se o aumento de quadros clínicos caracterizados por impulsividade, compulsões, adições comportamentais e hiperatividade psíquica, ao lado de manifestações de apatia, desinvestimento libidinal e sensação de vazio subjetivo.

Autores como Melman (2002) e Birman (2014) destacam que tais fenômenos se relacionam às transformações socioculturais da modernidade tardia, marcadas pela aceleração, pela lógica do consumo e pela fragilização das referências simbólicas.

Dados epidemiológicos recentes apontam que comportamentos compulsivos como uso abusivo de tecnologias, compras compulsivas e transtornos alimentares apresentam prevalência crescente, especialmente entre jovens adultos.

Estudos internacionais estimam que entre 8% e 12% da população manifesta algum tipo de comportamento aditivo não químico, enquanto quadros depressivos com forte componente de vazio subjetivo alcançam aproximadamente 5% a 7% da população mundial (WHO, 2024).

Cada situação deve ser avaliada de maneira muito individual. Diagnósticos devem ser realizados apenas por profissionais da área, como médicos psiquiatras e psicólogos experientes. Então, diante de qualquer percepção de problema, procure ajuda médica e psicológica especializada.

Este artigo articula tais dados à compreensão psicanalítica contemporânea e acrescenta uma análise neurobiológica complementar, reconhecendo que, embora a psicanálise opere no campo da subjetividade, o funcionamento cerebral participa da constituição dos fenômenos clínicos.

Fundamentação teórica

Psicopatologias dos excessos

As psicopatologias dos excessos caracterizam-se por uma hiperprodução de atos, estímulos e descargas, frequentemente substituindo o trabalho psíquico de simbolização.

Para Lacan (1972), o excesso pode ser compreendido como uma tentativa de tamponar a falta estrutural, transformando o desejo em demanda infinita de satisfação, portanto não há limite, não há castração do desejo.

Autores contemporâneos, como Dunker (2017), observam que o excesso se manifesta como uma defesa contra o sofrimento psíquico, funcionando como uma “hiperatividade subjetiva” que impede o sujeito de se confrontar com sua própria história.

Entre as formas clínicas mais comuns encontram-se:

  • Compulsões alimentares
  • Compulsões e distúrbios da relação com o corpo e o peso
  • Compulsão ao trabalho – workaholic – Hiperprodutividade
  • Transtono da Acumulação
  • Adições tecnológicas e a drogas psicoativas
  • Sexualidade compulsiva
  • Automutilações repetitivas
  • Dependência de estímulos intensos – jogos online ou imersivos violentos, músicas em som alto ou barulhentas, rolar redes sociais, esportes radicais, sexo radical e casual, outros
  • Compulsão a cirurgias plásticas ou procedimentos estéticos
  • Compulsão por apostas, a jogos de azar, jogos online ou as “Bets”

Diversos fatores influenciam o comportamento dos consumidores na atualidade, entre eles aspectos econômicos, culturais, pessoais e psicológicos (MERLO; CERIBELI, 2014).

Os fatores psicológicos dizem respeito às motivações internas do indivíduo, à forma como ele percebe situações e produtos, bem como à sua capacidade de aprender e recordar experiências anteriores.

A compra guiada por elementos psicológicos é típica de consumidores que utilizam o ato de consumir como meio de fortalecer a autoestima, melhorar a autoimagem ou estreitar vínculos afetivos ou não com outras pessoas (MEDEIROS et al., 2015).

No que se refere especificamente às compras compulsivas, há inúmeras observações possíveis, considerando que esse comportamento pode estar relacionado a vivências pessoais, emoções, estímulos presentes no ambiente de compra, tendências da moda, materialismo, cultura, idade, entre outros fatores (STEFANINI; OLIVEIRA, 2014).

Para Palan et al. (2011), os elementos que favorecem o consumo compulsivo podem ser agrupados em três categorias: influências psicológicas como autoestima, percepção de status social e fantasias; influências familiares; e influências sociológicas que incluem pressão de parentes e vizinhos, influência das mídias e uso do cartão de crédito.

Solomon (2016) argumenta que decidir comprar sem refletir, planejar ou realmente precisar do produto é uma característica comum entre indivíduos da sociedade contemporânea, tornando-os suscetíveis ao comportamento compulsivo. Em um contexto social marcado pelo endividamento, cria-se um ambiente que reforça práticas e crenças que justificam gastos excessivos, tornando as compras exageradas socialmente toleráveis.

A ansiedade exerce papel central nesse processo, pois desencadeia ações impulsivas que levam o consumidor a buscar formas rápidas de aliviar tensões e emoções negativas. Jovens que desejam demonstrar independência ou status recorrem ao dinheiro como meio de impressionar outras pessoas (STEFANINI; OLIVEIRA, 2014).

O comprador compulsivo tende a apresentar níveis mais elevados de ansiedade do que indivíduos não compulsivos, realizando compras especialmente em momentos de maior estresse.

Assim, o ato compulsivo de comprar funciona como uma tentativa imediata de reduzir a ansiedade, atuando como uma válvula de escape sendo essa sensação o principal motivo que leva pessoas a desenvolver comportamentos viciosos ou compulsivos (ROBERTS, J.; ROBERTS, C., 2012).

A ansiedade configura-se como um transtorno psicológico que impulsiona a prática das compras compulsivas, já que muitos indivíduos buscam compensar suas carências emocionais por meio da aquisição de bens materiais que não são realmente necessários.

A sensação negativa também estimula o ato de comprar, pois o indivíduo sente alívio após a aquisição; por isso, consumidores compulsivos tendem a exagerar nas compras, buscando diminuir tensão, ansiedade ou inquietação (COUTO, 2014).

Vivemos um período marcado pelo excesso de informações e estímulos visuais, sonoros e sensoriais muitos deles artificiais que gera um desconforto crescente e a sensação de que o consumo passou a consumir as próprias pessoas.

Esses debates costumam seguir duas linhas principais. A primeira, inspirada em Goleman (2013), aponta para a perda de foco em um mundo repleto de distrações, exigindo novas formas de manter a atenção. A segunda, conforme Héritier (2013), destaca que estamos perdendo a capacidade de reconhecer o que realmente importa: convivência familiar, lazer, atividades voluntárias, momentos de reflexão, espiritualidade, descanso e contato genuíno com amigos.

Tais experiências têm sido constantemente adiadas, já que a multiplicidade de estímulos e ferramentas reduz o tempo e a disponibilidade das pessoas.

Desde cedo, as pessoas são expostas a conteúdos televisivos marcados por violência, estímulo ao consumo, modismos e conflitos sociais e familiares. Na sociedade atual, tudo é imediato, e a chamada “cultura do vazio” incentiva uma busca incessante por prazer e poder.

A sociedade de consumo provoca mudanças profundas na organização social e nas relações humanas. O excesso se tornou uma marca evidente: excesso de objetos, informações, tecnologias, imagens e mensagens. Basta observar a televisão, celular, redes sociais, caminhar pelas ruas ou olhar pela janela para perceber essa saturação.

Comprar passou a ser visto como uma experiência quase mágica, capaz de gerar prazer e preencher insatisfações. Essa lógica, embora simples, pode levar ao desejo descontrolado de adquirir bens, alimentado por inúmeros impulsos e estímulos.

Vivemos uma cultura consumista e individualista, na qual a necessidade de possuir domina o comportamento cotidiano. Expressões como “Qual é o seu preço?”, “Qual é o seu desejo?”, “O dinheiro compra tudo”, “Estou a busca da felicidade” reforçam a ideia equivocada de que tudo pode ser transformado em mercadoria (SILVA, 2014).

Nesse contexto, modos de vida que valorizam o ser e não o ter são desencorajados, pois não alimentam o mercado. Quem está satisfeito consigo mesmo não se vê compelido a consumir cosméticos, realizar cirurgias, buscar parceiros idealizados, comprar compulsivamente ou conquistar títulos sociais.

No entanto, essa postura contraria a lógica de uma sociedade que depende da aparência e das relações de consumo para definir valor social.

Como consequência, o vazio existencial tornou-se uma marca da contemporaneidade. Para tentar encobrir essa sensação, muitos recorrem ao consumismo, ao individualismo e à ausência de limites, numa tentativa de preencher aquilo que permanece internamente vazio.

O ser humano precisa empenhar-se intensamente para transformar o comportamento que vem modificando de forma profunda sua relação com o mundo. Essa mudança é essencial para recuperar autonomia, qualidade de vida e a capacidade de agir de acordo com seus próprios desejos e responsabilidades, assumindo as consequências de suas escolhas, em vez de permanecer preso a padrões que o tornam refém de seus próprios erros.

Nesse contexto acelerado, marcado pela falta de tempo e pela pressão do consumo, o indivíduo acaba se afastando de sua verdadeira essência. Ele deixa de reconhecer-se como sujeito responsável por suas ações e perde a capacidade de resistir ao consumismo exagerado, que afeta tanto sua vida quanto suas relações com aqueles que o cercam.

O consumo compulsivo é entendido como uma manifestação do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), caracterizado por comportamentos repetitivos destinados a aliviar ansiedade ou evitar situações temidas, além de pensamentos intrusivos e persistentes que geram desconforto (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2000).

Magalhães (2013) descreve esse tipo de consumo como um transtorno psicológico difícil de controlar, marcado por compras frequentes e contínuas, geralmente associadas à baixa autoestima. Veludo-de-Oliveira, Ikeda e Santos (2004) reforçam que esses indivíduos compram sem necessidade, de forma impulsiva, ignorando prejuízos e fracassando repetidamente ao tentar controlar o comportamento.

A compulsão também se manifesta em compras imediatas e irrefletidas, motivadas pela proximidade do produto e pela promessa de recompensa emocional.

O consumidor retém as sensações positivas e ignora as negativas, especialmente quando adquire itens da moda. Nesse processo, a perda de controle é comum: a busca por bem-estar supera qualquer tentativa de conter os impulsos.

Após a compra, surge a chamada “ressaca moral”, marcada por culpa, vergonha e confusão. Para aliviar esses sentimentos, o compulsivo tende a repetir o ciclo, reiniciando o comportamento que o levou ao mal-estar.

Esse padrão está associado a sérios problemas emocionais e pode evoluir para quadros depressivos. Além disso, a falta de planejamento e o impulso constante resultam em dificuldades financeiras, já que o indivíduo não consegue arcar com dívidas e parcelas acumuladas.

Estima-se que o transtorno de compras compulsivas afeta aproximadamente de 2% a 8% da população geral e pode estar associado a quadros psicopatológicos como, transtorno de ansiedade, transtorno de humor, uso abusivo de substâncias e como comorbidade da depressão (LEJOYEUX; WEINSTEIN, 2010).

A Clínica do Vazio

A clínica do vazio caracteriza-se pela ausência de investimento libidinal, pela sensação de despersonalização e pela dificuldade de acessar afetos. Green (1983) descreve o “complexo da mãe morta” como matriz possível para estados de vazio, nos quais o sujeito internaliza um objeto primário desinvestido.

Na contemporaneidade, o vazio aparece como:

  • Apatia profunda;
  • Sensação de não existência;
  • Dificuldade de desejar;
  • Retraimento social;
  • Desinvestimento do corpo e das relações.

Na literatura psicanalítica (especialmente a partir de autores como Donald Winnicott e André Green), o vazio não se restringe a um único diagnóstico, mas atravessa diferentes estruturas e organizações do self:

  • Transtornos Depressivos Contemporâneos (ou Neomelancolia): Depressões marcadas menos pela culpa neurótica e mais pela redução de energia vital e desinvestimento narcísico.
  • Transtornos de Personalidade Borderline: Onde o vazio crônico e a instabilidade da autoimagem surgem devido a falhas precoces no espelhamento e na integração do eu.
  • Personalidade Narcisista: Sujeitos que dependem excessivamente do olhar do outro para manter uma estrutura frágil, vivenciando colapsos de vazio quando o espelho social falha.
  • Transtornos Alimentares (Anorexia e Bulimia): O corpo passa a ser o território de controle ou de encenação drástica para tentar delimitar e dar contorno a um vazio que não encontra representação psíquica.
  • Toxicomanias e Adições: O uso de drogas ou comportamentos aditivos funciona como um recurso artificial de tamponamento do furo estrutural do sujeito.
  • Fenômenos de Falso Self: Estados em que o sujeito opera de maneira robótica, apenas cumprindo funções sociais, sem acesso ao seu verdadeiro potencial espontâneo.

Segundo Birman (2014), o vazio é uma resposta ao excesso de exigências sociais, produzindo um colapso das funções de simbolização.

Neurobiologia do Excesso e do Vazio: Neurotransmissores, Hormônios e Psicanálise

Embora a psicanálise opere no campo da subjetividade, a compreensão contemporânea das psicopatologias do excesso e do vazio pode ser enriquecida pela articulação com achados neurobiológicos.

Não se trata de reduzir o sujeito ao cérebro, mas de reconhecer que o funcionamento neuroquímico participa da constituição dos fenômenos clínicos que a psicanálise escuta.

Neurotransmissores envolvidos no excesso

Quadros de excesso frequentemente apresentam correlação com hiperativação dopaminérgica, especialmente nos circuitos de recompensa (núcleo accumbens, córtex pré-frontal).

A dopamina está associada à busca de novidade, impulsividade e reforço de comportamentos repetitivos.

  • Dopamina: relacionada ao prazer imediato e à compulsão. Em comportamentos aditivos, há liberação excessiva, reforçando o ato.
  • Noradrenalina: associada à hiperalerta e à ansiedade, frequentemente elevada em sujeitos com hiperatividade psíquica.
  • Glutamato: envolvido na aprendizagem de hábitos compulsivos.

A psicanálise compreende que tais descargas químicas funcionam como substitutos da simbolização. O sujeito, incapaz de elaborar simbolicamente sua falta, recorre ao ato que produz descarga dopaminérgica, tamponando temporariamente o sofrimento.

Neurobiologia do vazio

O vazio subjetivo apresenta correlação com hipoatividade de sistemas serotoninérgicos e dopaminérgicos, além de alterações no eixo hipotálamo‑hipófise‑adrenal (HHA).

  • Serotonina: níveis reduzidos associam-se à apatia, desinvestimento e sensação de vazio.
  • Dopamina: baixa atividade dopaminérgica correlaciona-se à perda de motivação e anedonia.
  • Cortisol: alterações crônicas no cortisol podem produzir sensação de esgotamento psíquico.

A psicanálise entende o vazio como falha na constituição do desejo. A neurobiologia complementa essa visão ao demonstrar que estados prolongados de desinvestimento podem corresponder a padrões neuroquímicos de baixa ativação motivacional.

Hormônios e Vínculos: Oxitocina e Psicanálise

A oxitocina, hormônio relacionado ao apego e à confiança, desempenha papel importante na constituição dos vínculos primários. Falhas precoces de cuidado podem alterar a responsividade oxitocinérgica, contribuindo para quadros de vazio ou excesso.

A psicanálise, ao trabalhar a transferência, oferece um espaço relacional que pode favorecer a reorganização subjetiva dos vínculos, ainda que não atue diretamente sobre a neuroquímica.

Articulação entre Cérebro e Subjetividade

A neurobiologia descreve mecanismos; a psicanálise interpreta sentidos. O excesso pode ser visto como hiperativação dopaminérgica que reforça o ato, enquanto a psicanálise compreende o ato como defesa contra a falta. O vazio pode ser visto como hipoativação motivacional, enquanto a psicanálise o entende como desinvestimento libidinal. Ambas as perspectivas se complementam sem se anularem.

Exemplos clínicos fictícios

Caso A – Psicopatologia do excesso

Jeane, 28 anos, procura atendimento após episódios de compulsão alimentar, compulsão a compras e uso excessivo de redes sociais. Relata passar até 10 horas por dia conectada, alternando entre vídeos, compras online e jogos. Afirma sentir “uma energia que não pode parar”.

Do ponto de vista neurobiológico, comportamentos compulsivos como os de Jeane podem envolver hiperativação dopaminérgica. Na análise, observa-se que o excesso funciona como defesa contra sentimentos de abandono vivenciados na infância e início da adolescência.

Caso B – Clínica do vazio

Isaque, 35 anos, apresenta apatia, falta de motivação, pensamentos negativistas, ansiedade social e sensação de vazio. Relata que “nada faz sentido”. Neurobiologicamente, quadros como o de Isaque podem envolver baixa atividade serotoninérgica e dopaminérgica.

Na análise, o silêncio predominante revela a dificuldade de acessar afetos e conversar sobre seu sofrimento. O vazio aparece como defesa contra experiências traumáticas precoces do adoecimento materno, bullying escolar e dor intensa.

Discussão

A psicanálise contemporânea compreende que excesso e vazio não são fenômenos opostos, mas complementares. Ambos revelam falhas na constituição do sujeito e na capacidade de simbolização. A neurobiologia acrescenta que tais falhas podem corresponder a padrões neuroquímicos específicos.

A clínica exige que o analista sustente o espaço de fala e de escuta, permitindo que o sujeito transforme atos em palavras. Como afirma Figueiredo (2009), o analista deve operar como “suporte de alteridade”.

Alteridade significa a capacidade de reconhecer e respeitar o outro como alguém diferente de você. A palavra vem do latim alter, que significa “o outro”.

Não se trata apenas de notar que outra pessoa existe. Significa compreender que ela possui pensamentos, sentimentos, culturas e uma história de vida próprios, que não dependem do que você pensa ou deseja.

Na Psicanálise é o processo de amadurecimento em que o bebê percebe que a mãe não é uma extensão dele, mas sim um “outro” indivíduo. Na clínica atual, a falta de alteridade faz com que as pessoas usem os outros apenas como espelhos para inflar o próprio ego ou ser uma parte de seu narcisismo como continuidade.

O Narcisismo e o Uso do Outro

No narcisismo patológico, o sujeito não consegue enxergar o outro como um indivíduo independente.

  • O outro como espelho: O narcisista precisa que as pessoas ao redor funcionem apenas como um espelho. Elas servem para devolver uma imagem idealizada, bonita e poderosa dele mesmo.
  • O outro como objeto de consumo: As relações tornam-se utilitaristas. O outro só tem valor enquanto aplaude, valida ou satisfaz as necessidades do narcisista. Quando deixa de fazer isso, é descartado.
  • A negação da diferença: Como o narcisista não tolera a alteridade, qualquer desejo, opinião ou crítica do outro que seja diferente da sua é vista como uma ameaça ou uma ofensa pessoal.

Consequências na Sociedade e nos Vínculos

A falta de alteridade alimentada pelo narcisismo gera impactos profundos na vida cotidiana:

  • Incapacidade de ouvir: As conversas viram monólogos paralelos, onde cada um só espera a sua vez de falar sobre si mesmo.
  • Frágil tolerância à frustração: Terminar um relacionamento ou ouvir um “não” torna-se insuportável. O sujeito não aceita que o outro tem o direito de não o querer mais.
  • Cultura do cancelamento: Nas redes sociais, a menor divergência de pensamento é punida com a exclusão. Não há espaço para o debate com quem pensa diferente (o outro).
  • Superficialidade nos afetos: Sem alteridade, não há intimidade real. Para amar alguém de verdade, é preciso aceitar os defeitos e as diferenças dessa pessoa. O narcisista ama apenas a projeção que faz do outro.
  • O comportamento de ghosting. E é uma expressão clara da falta de alteridade e do narcisismo nas relações contemporâneas. O termo vem do inglês ghost (fantasma). Ele acontece quando alguém corta repentinamente toda a comunicação com um parceiro ou amigo, sem dar nenhuma explicação, sumindo como se tivesse virado um fantasma. O outro é visto apenas como um objeto de consumo. Quando o interesse acaba, o objeto é descartado sem consideração ou respeito.
  • Evitação do desconforto próprio (Egoísmo): Terminar um relacionamento exige maturidade para enfrentar a conversa, lidar com a tristeza do outro e assumir a responsabilidade pelo fim. O sujeito narcisista foge disso. Ele prefere poupar o próprio ego do desconforto, mesmo que isso custe o sofrimento psicológico alheio.
  • Falta de responsabilidade afetiva: Sem a capacidade de se importar com o impacto de suas ações na mente de terceiros, o indivíduo some simplesmente porque “não está mais com vontade” de interagir, ignorando o desamparo que abandonou.
  • O peso do silêncio: O fim sem explicação impede que a outra pessoa elabore o luto da relação. A falta de palavras gera um vazio de sentido, onde a pessoa fica presa em um ciclo eterno de dúvidas (“O que eu fiz de errado?”, “O que aconteceu nesta relação?”, “Qual foi o motivo para o sumiço?”, “O que aconteceu com a pessoa?”).
  • Ataque à autoestima: A vítima sente-se invisível, insignificante e desvalorizada, desrespeitada, como se ela não existisse ou não tivesse valor nenhum para o outro.

Por que a falta de Alteridade gera Ódio e Retaliação?

  • A diferença vista como ameaça (Ferida Narcísica): Para o narcisista, a sua própria visão de mundo é a única correta. Quando alguém pensa diferente, critica ou rejeita seus comportamentos, o narcisista não vê isso como um debate saudável. Ele sente isso como um ataque violento ao seu próprio ego e inveja subjacente.
  • A desumanização do outro: Sem alteridade, você apaga a humanidade de quem discorda de você. Fica muito mais fácil odiar, insultar ou retaliar alguém quando você não enxerga aquela pessoa como um ser humano real, que tem sentimentos e dores.
  • Incapacidade de tolerar a frustração: O ghosting é uma rejeição silenciosa. Muitas vezes, a pessoa rejeitada reage com ódio e retaliação porque não consegue suportar a dor de não ter seu desejo correspondido em sua idealização. O ego ferido exige vingança para recuperar o poder, o comportamento é um acting out, desaparece deixa uma marca de indiferença na relação com o outro.

O Papel do Ambiente Digital

A internet e as redes sociais funcionam como um combustível para essa dinâmica da cultura do ódio:

  • Tribalismo e bolhas: As pessoas se unem em grupos de iguais para inflar seus egos coletivos. Quem está fora da bolha é visto com desprezo e ódio.
  • O “Cancelamento” como Retaliação: O cancelamento virtual muitas vezes disfarça-se de justiça, mas na verdade é uma forma de retaliação cruel. O objetivo não é educar ou dialogar, mas sim banir, silenciar e destruir a reputação do outro.
  • O anonimato e a distância: A tela do computador impede que a pessoa se identifique e veja o rosto de sofrimento da vítima. Isso desliga a empatia e libera impulsos agressivos sem nenhuma culpa.

Os exemplos mais nítidos de bolhas que alimentam a cultura do ódio e da retaliação ocorrem em subculturas digitais estruturadas exatamente pela recusa da alteridade e pelo isolamento radical.

São grupos que criam uma identidade coletiva baseada no ressentimento e na eleição de um “inimigo comum” que precisa ser punido ou destruído.

1.Comunidades Incel (Involuntarily Celibate / Celibatários Involuntários/ Machosfera)

Fóruns e canais fechados na internet onde homens jovens se reúnem para compartilhar frustrações amorosas e sexuais.

  • A dinâmica narcísica: Eles não aceitam a alteridade das mulheres (o direito da mulher de escolher com quem quer se relacionar).
  • O ódio e retaliação: A rejeição amorosa é vivida como uma ferida narcísica insuportável. A bolha valida e amplifica esse sentimento, transformando a frustração individual em um ódio sistêmico contra as mulheres, frequentemente resultando em ataques coordenados de assédio virtual, vazamento de fotos íntimas (“nuds”, doxxing) e ameaças.

2. Extremismo Político de Torcida (Polarização Radical)

Bolhas em redes sociais (como canais no Telegram, Discord ou comunidades no X) onde o debate político foi substituído pela lógica da guerra.

  • A dinâmica narcísica: O grupo ao qual o indivíduo pertence é visto como o único detentor da virtude moral e da verdade. Quem discorda não é apenas alguém com outra opinião, é rotulado como “um monstro”, “um traidor” ou “burro”.
  • O ódio e retaliação: Nessas bolhas, estimula-se o linchamento virtual de opositores, jornalistas ou cidadãos comuns que façam críticas leves. Há campanhas coordenadas para derrubar contas, fazer denúncias em massa e expor dados pessoais (endereço, local de trabalho) para provocar demissões e agressões reais.

3. Fandoms Tóxicos (Comunidades Obsessivas de Fãs)

Bolhas de fãs radicais de cantores pop, atores, jogos de videogame, séries ou influenciadores digitais.

  • A dinâmica narcísica: O fã projeta seu próprio ideal de ego no ídolo. Qualquer crítica ao ídolo é sentida como um ataque pessoal e direto à identidade do próprio fã.
  • O ódio e retaliação: Se um crítico de arte dá uma nota baixa para um álbum, ou se outra celebridade faz um comentário interpretado como desfavorável, essas bolhas organizam “ondas de ataque”. Eles invadem o perfil do alvo com milhares de insultos pesados, ameaças de morte e discursos de ódio por dias seguidos.

4. Grupos de Linchamento Moral por Estética ou Estilo de Vida

Bolhas focadas em vigiar e punir comportamentos alheios sob o pretexto de defender “regras” de criação de filhos, dietas, corpos ideais ou escolhas afetivas.

  • A dinâmica narcísica: O grupo se coloca em uma posição de superioridade moral ou intelectual.
  • O ódio e retaliação: Perfis de mães, por exemplo, são frequentemente atacados de forma cruel por outras bolhas de mães caso exibam uma rotina que fuja do padrão considerado “perfeito”. O objetivo da bolha não é debater a maternidade, mas sim humilhar publicamente a pessoa para que os membros do grupo se sintam superiores.

O que todas essas bolhas têm em comum é o fato de funcionarem como caixas de eco. Elas barram qualquer entrada de alteridade.

Dentro delas, o ódio é normalizado, validado pelos pares e transformado em uma missão de retaliação que dá ao sujeito uma falsa sensação de poder diante do seu próprio vazio interno.

O que atrai psicologicamente uma pessoa para essas bolhas?

O ingresso em um grupo de ódio raramente acontece por acaso; trata-se de uma tentativa desesperada (e patológica) de curar o sofrimento gerado pela clínica do vazio.

  • Alívio imediato do desamparo: O sujeito que se sente isolado, invisível e sem lugar no mundo encontra na bolha um senso instantâneo de pertencimento. Ele deixa de ser “ninguém” e passa a ser “membro de um exército”.
  • Terceirização da culpa (Projeção): É doloroso olhar para as próprias falhas, frustrações ou para o próprio vazio. A bolha oferece um culpado externo (as mulheres, a oposição política, os imigrantes, a religião, etc.). Toda a angústia interna é convertida em raiva direcionada para fora.
  • Ganho de poder narcísico: Ao participar de um linchamento virtual, o indivíduo experimenta uma sensação de onipotência narcisica. Ele sente que tem o poder de destruir a vida de alguém com alguns cliques, o que compensa temporariamente sua profunda sensação de impotência na vida real.
  • Estruturação do caos interno: O ódio compartilhado simplifica o mundo. A realidade, que é complexa e cheia de nuances, é reduzida a uma lógica binária fácil de processar: “nós somos os bons, eles são os maus”.

Formas de Intervenção e Tratamento Psicológico

O manejo clínico ou social de indivíduos capturados por essa lógica é desafiador, pois desconstruir a bolha significa confrontar o sujeito com o seu próprio vazio original.

No Setting Terapêutico (Psicanálise e Psicologia)

  • Acolhimento da dor por trás do ódio: O terapeuta não deve focar apenas em punir ou moralizar o comportamento agressivo do paciente. É preciso cavar mais fundo para descobrir qual é a ferida narcísica ou o desamparo que gerou aquela raiva defensiva.
  • Construção da capacidade de simbolização: Estimular o paciente a traduzir em palavras suas frustrações reais (como a solidão, o medo do fracasso ou a rejeição), em vez de descarregá-las imediatamente em atos de retaliação virtual.
  • Introdução gradual da alteridade: Ajudar o sujeito a tolerar a existência da diferença. Mostrar que o fato de alguém discordar dele ou rejeitá-lo não destrói o seu valor como pessoa.
  • Desinflar o Falso Self: Conduzir o paciente a abandonar a identidade artificial e inflada que ele adotou na internet, ajudando-o a construir conexões reais, humanas e imperfeitas no mundo analógico.

No Âmbito Social e Familiar

  • Rompimento do isolamento digital: Estimular atividades fora das telas que envolvam o corpo, a coletividade e o contato com a diversidade (esportes, artes, trabalho voluntário). O mundo real quebra a ilusão da caixa de eco virtual.
  • Intervenções de letramento midiático: Ensinar a identificar como os algoritmos das redes sociais lucram com o engajamento baseado na raiva, ajudando o sujeito a perceber que ele está sendo manipulado emocionalmente.

Tratamento Psicanalítico Contemporâneo

O enquadre estável funciona como continente para o excesso e como presença para o vazio. O analista auxilia na transformação dos atos em palavras, favorecendo a elaboração psíquica. A transferência pode manifestar-se como demanda infinita (excesso) ou retraimento (vazio). A clínica contemporânea exige que o analista sustente a falta como condição de desejo.

Considerações finais

As psicopatologias do excesso e da clínica do vazio representam desafios centrais para a psicanálise contemporânea. A articulação com a neurobiologia não substitui a escuta psicanalítica, mas amplia a compreensão dos fenômenos clínicos.

A Psicóloga, Terapeuta Cognitiva Comportamental, Psicanalista Psicodinâmica Contemporânea e Neuropsicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida (CRP 06/41029) atende em plataforma segura como o Consultório Virtual Seguro® Casa dos Insights, plataforma de Telessaúde segura e criptografada, reafirma a importância do vínculo humano, da escuta qualificada e da proteção ética integral dos dados sensíveis dos clientes.

Se você ou alguém que conhece precisa de suporte, a Psicóloga Marina da Silveira Rodrigues Almeida está disponível para atendimentos de avaliação neuropsicológica online para Autismo e TDAH em homens e mulheres e psicoterapia online. O primeiro passo para a saúde emocional é buscar ajuda especializada.

A psicanalista e terapeuta cognitiva comportamental Psicóloga Marina Almeida realiza atendimentos online para todo o Brasil e exterior, com foco em escuta clínica de adultos neurodiversos e típicos.

Entre em contato por mensagem no WhatsApp 55(13) 991773793.

Referências

BIRMAN, Joel. O sujeito na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

COUTO, M. C. V. Comportamento do consumidor compulsivo: uma análise psicológica. 2014.

DUNKER, Christian. A psicose na infância. São Paulo: Escuta, 2017.

FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Psicanálise e presença. São Paulo: Escuta, 2009.

GREEN, André. O complexo da mãe morta. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

GUIMARÃES, Rafael Moreira. Quando muito não é o bastante: um estudo sobre as relações de compradores compulsivos com seus objetos de consumo, sob a ótima da posse e da propriedade. 2016. 128f. Tese (Doutorado em Administração) – Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

HÉRITIER, Françoise. O sal da vida: o que faz a vida valer a pena! Tradução de Maria Alice A. de Sampaio Dória. 5.ed. Rio de Janeiro: Valentina, 2013.

KARSAKLIAN, Eliane. Comportamento do consumidor. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2012.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

LEITE, Priscilla Lourenço; RANGÊ, Bernard Pimentel; RIBAS JUNIOR, Rodolfo de Castro; FERNANDEZ, Jesus Landeira; SILVA, Adriana Cardoso de Oliveira. Validação e aferição de fidedignidade da versão brasileira da Compulsive Buying Scale. Revista de Psiquiatria Clínica, São Paulo, v.39, n.3, p.100-105, 2012.

LEJOYEUX, Michel; WEINSTEIN Aviv. Compulsive buying. The American Journal of Drug and Alcohol Abuse, [s.l.], v.36, n.5, p.248-253, 2010.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Espetáculo e do Divertimento. In: LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

MAGALHÃES, Maria dos Remédios Antunes. O comportamento de compra compulsiva: um estudo com métodos neurocientíficos. 2013. 196f. Tese (Doutorado em Administração) – Curso de Administração, Universidade Nove de Julho – Uninove, São Paulo, 2013.

MEDEIROS, Fabiana Gama; DINIZ, Ionara Sarai Ferreira Nóbrega; COSTA, Francisco José da; PEREIRA, Rita de Cássia Faria. Influência de estresse, materialismo e autoestima na compra compulsiva de adolescentes. RAC-Eletrônica, Curitiba, v.19, n.2, p.137-156, Aug. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rac/a/5y6dv7gpGyhLnRnFvGFskpz/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 26 jul. 2022.

MEDEIROS, J. F. et al. Fatores psicológicos e o comportamento de compra. 2015.

MELMAN, Charles. O homem sem gravidade. São Paulo: Companhia de Freud, 2002.

MERLO, Edgard Monforte; CERIBELI, Harrison B. Comportamento do consumidor. Rio de Janeiro: LTC, 2014.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-10 Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10.ed. rev. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2017.

PALAN, Kay M.; MORROW, Paula C.; TRAPP, Allan; BLACKBURN, Virgínia. Compulsive buying behavior in college students: the mediating role of credit card misuse. The Journal of Marketing Theory and Practice, [s.l], v.19, n.1, p.81-96, 2011.

ROBERTS, J.; ROBERTS, C. The role of anxiety in compulsive buying. 2012.

SOLOMON, M. R. Comportamento do consumidor: comprando, possuindo e sendo. 2016.

STEFANINI, M.; OLIVEIRA, L. Compras compulsivas: influências sociais e psicológicas. 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Mental Health Report. Geneva: WHO, 2024.

Marina da Silveira Rodrigues Almeida – CRP 06/41029

Psicóloga Clínica, Escolar e Neuropsicóloga, Especialista em pessoas Autistas (TEA), TDAH, Neurotípicos e Neurodiversos.

Psicanalista Psicodinâmica e Terapeuta Cognitiva Comportamental

Entre em contato comigo somente por mensagem no WhatsApp (+55) 13 991773793 que minha secretária enviará as informações que precisar sobre Avaliação Neuropsicológica on-line, Psicoterapia on-line, Mentoria, Palestras e Consultoria.

Instagram:

@institutoinclusaobrasil

@psicologamarinaalmeida

@autismoemadultos_br

Conheça os E-Books

Coleção Neurodiversidade

Coleção Escola Inclusiva

Os E-books da Coleção Neurodiversidade, abordam vários temas da Educação, elucidando as dúvidas mais frequentes de pessoas neurodiversas, professores, profissionais e pais relativas à Educação Inclusiva.

Outros posts

O NASCIMENTO DE UM BEBÊ COM DEFICIÊNCIA

O nascimento de um bebê desperta nos pais grandes trocas emocionais, fantasias, expectativas sonhos. Quando um bebê nasce com algum tipo de deficiência, os pais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *